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Correio da Manhã

Portugal
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Funerárias pagavam para saber mortes nos hospitais

A PJ de Portimão desencadeou anteontem uma operação de combate a alegados crimes de corrupção envolvendo agências funerárias sediadas em Portimão e Lagos. As funerárias pagariam a pessoas ligadas ao hospital, morgue e ao sector do socorro para terem acesso imediato a informações de mortes, de forma a se anteciparem aos concorrentes no contacto com as famílias dos falecidos.
19 de Agosto de 2005 às 00:00
Agências Barlavento, Malha e Coelho foram passadas a pente fino pela PJ de Portimão
Agências Barlavento, Malha e Coelho foram passadas a pente fino pela PJ de Portimão FOTO: José Carlos Campos
A PJ interrogou pessoas ligadas ao negócio e efectuou buscas em vários locais. Cinco indivíduos terão sido constituídos arguidos e três deles presentes ao Tribunal de Portimão.
Segundo apurou o CM, entre os implicados estarão os responsáveis pelas três agências funerárias com sede em Portimão: ‘Barlavento’, ‘Malha’ e ‘Coelho’. Além dos empresários, a PJ ouviu ainda um funcionário da morgue do Hospital do Barlavento, que terá sido constituído arguido. A Judiciária poderá ainda vir a efectuar mais detenções. Em causa estarão pagamentos feitos pelos agentes a pessoas ligadas aos sectores da saúde e da protecção e socorro.
As ‘luvas’ serviriam para as funerárias terem acesso a informações privilegiadas sobre mortes ocorridas, permitindo a antecipação aos concorrentes, através da rápida contratação de serviços aos familiares das vítimas. Os pagamentos variariam entre os 150 e os 300 euros. A situação chegou ao rídiculo de pessoas serem informadas pelas funerárias da morte de familiares.
A operação da PJ incluiu buscas nas sedes das agências e respectivos armazéns. As casas dos proprietários e de alguns empregados foram também alvo das buscas. E até os carros funerários não escaparam à PJ.
A PJ ainda realizou buscas na residência do funcionário da morgue e nos cacifos que este possui no hospital e quartel dos Bombeiros de Lagos, onde é voluntário. Outras pessoas terão ainda sido alvo de idêntico procedimento, pelo que o número de arguidos poderá aumentar.
A PJ apreendeu vários documentos e telemóveis. Ao que tudo indica, os telefones dos suspeitos já estariam sob escuta há algum tempo.
DENÚNCIA GERA OPERAÇÃO
Na origem da investigação da PJ estará uma denúncia apresentada, há cerca de um ano, por um, empresa funerária, que se sentia prejudicada pela forma de actuar das concorrentes. Aliás, o grande número de agências nas zonas de Portimão e Lagos terá inflacionado as ‘comissões’ pagas aos elementos que podiam dar informações em primeira mão sobre a ocorrência de mortes, o que terá desmotivado alguns agentes a manterem-se no esquema.
O Hospital do Barlavento decidiu, entretanto, acabar com o sistema de piquete na morgue, assegurado pelas agências e terá comunicado às autoridades queixas feitas por pessoas que sabiam da morte de familiares funcionários das empresas.
PORMENORES
DETIDOS
No âmbito das investigações foram detidas três pessoas ligadas às agências ‘Barlavento’ e ‘Malha’ e o funcionário da morgue. Os três terão passado a noite de quarta para quinta-feira nos calabouços da PJ.
SUSPEITAS
O facto de elementos ligados às agências funerárias aparecerem em locais de acidentes ou onde ocorriam mortes muito rapidamente, vinha há muito tempo a ser alvo de muitos comentários populares.
MORALIZAR
Esta operação da Judiciária de Portimão poderá ter, na opinião de algumas fontes ouvida pelo CM, um importante efeito moralizador no sector funerário, onde as regras usadas passariam, nalguns casos, os limites.
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