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Correio da Manhã

Portugal
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GANG FRANCÊS TRAVADO A TIRO

A PSP de Viseu e a GNR de São Pedro do Sul detiveram ontem três membros de um grupo que, armado com metralhadoras, é suspeito de ter assaltado cinco agências bancárias na zona Centro.
30 de Julho de 2003 às 00:47
A operação causou momentos de pânico e envolveu o sequestro de pessoas, carros incendiados, perseguições, tiroteio e luta corpo a corpo. No final foram capturados os criminosos, de nacionalidade francesa, naturais da Córsega, de 25, 26 e 34 anos, que ficaram feridos, bem como um polícia.
Pelas 10h00, os criminosos estacionaram um Renault Clio, furtado, nas imediações do Banco Santander e de metralhadora em punho entraram na agência e perpetraram o assalto. Entretanto, o alarme ligado à PSP foi accionado. Quando os agentes chegaram, dois assaltantes – o outro ficou no carro – já estavam no exterior do banco com a arma apontada a dois bancários, feitos reféns. "Stop! Stop! Stop!", gritaram os meliantes aos polícias.
Usando os reféns como escudos, os indivíduos aproximaram-se da viatura e, após deitarem os sequestrados no chão, dispararam vários tiros na direcção dos polícias. Uma das balas atingiu um agente na perna direita.
Os ladrões entraram no Renault Clio e seguiram para a Avenida da Bélgica, abandonando num bairro a viatura, que fizeram explodir com um ‘cocktail molotov’.
De seguida, os fugitivos introduziram-se noutra viatura, um Renault Laguna, de matrícula francesa, e dirigiram-se para a EN16, em direcção a São Pedro do Sul. A PSP alertou a GNR desta vila e perseguiu os indivíduos até Lourosa da Comenda, onde as autoridades encurralaram o trio, que entrou num caminho rural.
Os assaltantes saíram do carro, que também incendiaram com um engenho explosivo artesanal, e fugiram a pé para um pinhal. Nesta altura houve uma ‘chuva de tiros’ de parte a parte durante dez minutos. Os três ladrões, mesmo feridos – um deles nos testículos –, ainda lutaram corpo a corpo com os polícias. Os indivíduos acabaram presos, estando dois internados no Hospital de Viseu.
O subintendente Simões de Almeida, comandante da PSP de Viseu, indicou que "foi uma operação com sucesso” e que a polícia está “preparada para enfrentar qualquer tipo de situação” e que “a ligação às forças de segurança funciona".
Almeida Rodrigues, subdirector da PJ de Coimbra, adiantou que os detidos, "são suspeitos da autoria" de dois assaltos a bancos ocorridos anteontem em Viseu e Coimbra e de outros em Aveiro.
Um informador policial referiu que os indivíduos são “o núcleo duro de um bando altamente perigoso", desconhecendo-se se pertencem a alguma rede internacional criminosa, pelo que foram pedidas informações à Europol.
A eventual ligação dos assaltantes a grupos independentistas da Córsega está a ser avaliada. "Todos os cenários são possíveis e objecto de investigações", indicou um informador policial, embora outro tenha salientado que nesta altura das investigações “trata-se apenas de especulação”.
A PSP apreendeu as armas utilizadas nos crimes, metralhadoras calibre 9 mm, perucas com que se disfarçavam e o saco do dinheiro ontem roubado no último assalto.
Os indivíduos serão ouvidos hoje pelas autoridades judiciais.
ASPECTOS LIGADOS AO ROUBO
ESTRANGEIROS
Em dez anos, até 2002, 80 dos cerca de 600 assaltos a bancos registados pela PJ foram praticados por estrangeiros. Angolanos, brasileiros e são-tomenses levaram a cabo 38 assaltos. E um grupo de italianos só foi apanhado ao fim de 14 roubos.
CÓRSEGA
Terra natal de Napoleão, a Córsega tem sido palco desde 1976 de vários ataques terroristas atribuídos a diferentes organizações. A Frente Nacional de Libertação da Córsega, criada em 1976, é o principal grupo a reclamar maior autonomia face a França.
CERCO
Entre as 10h00 e as 12h00 de ontem, Viseu esteve em ‘estado de sítio’. A PSP ordenou o bloqueamento de todas as saídas da cidade, facto que provocou o caos no trânsito num dia de feira semanal e numa época de forte presença de emigrantes.
POLÍCIAS
Estiveram envolvidos na operação 20 agentes da PSP e 15 da GNR de São Pedro do Sul. O agente atingido, de 35 anos, está internado no hospital mas não corre perigo de vida. “Foi um herói e vai recuperar depressa”, indicou Simões de Almeida.
CLIENTES FICARAM ATERRORIZADOS
A agência do Banco Santander assaltada ontem de manhã situa-se na Avenida António José de Almeida, uma das principais artérias da cidade de Viseu, numa zona muito movimentada onde se situam diversos espaços comerciais.
Uma das testemunhas do roubo foi Raul Francisco, que entrou no banco quando este já estava a ser assaltado. "Quando entrei fui agarrado por uma pessoa armada e vi logo que estava a acontecer um assalto. Notei que havia um funcionário de caixa que estava ferido. Eles disseram-me depois para eu me sentar", referiu o cliente, acrescentando que, com a chegada da polícia, os ladrões ficaram "mais agitados" e tomaram o gerente do banco e um funcionário como reféns, saindo "para o exterior".
Os assaltantes passaram então em frente a um café, situado ao lado do banco, antes de conseguirem chegar ao carro onde viriam a fugir e que estava estacionado nas proximidades. "Eram 10h45 e estávamos com a casa cheia. Uma colega minha estava na esplanada a atender uma pessoa quando eles saíram do banco com dois reféns. Um dos assaltantes vinha armado com o que me pareceu ser uma metralhadora", referiu Manuel Monteiro, empregado do café. Os assaltantes dispararam então "três tiros", sendo que um deles atingiu um polícia "numa perna". As outras duas balas acertaram na montra do café e num automóvel que estava estacionado junto à esplanada do estabelecimento. Nesse momento, grande parte das várias dezenas de pessoas que estavam presentes no local lançaram-se "para o chão": "Ficámos completamente aterrorizados. Havia um polícia ferido e o tiro que entrou no café, se fosse um metro mais abaixo, podia ter-me atingido", afirmou.
RAZIA A AGÊNCIAS DA REGIÃO
Os três franceses detidos ontem são considerados suspeitos, pelas autoridades policiais, de terem cometido outros quatro assaltos à mão armada em bancos localizados nas cidades de Viseu, Coimbra e Aveiro.
O último roubo ocorreu às 15h00 de anteontem, no Banco Santander, em Coimbra, onde dois assaltantes conseguiram levar uma quantia ainda não especificada em dinheiro. No mesmo dia, cinco horas antes, uma dependência do Banco Nacional de Crédito Imobiliário foi também assaltada, em Viseu. Os ladrões conseguiram levar todo o dinheiro que estava guardado nas caixas e no cofre do banco, num valor total que, segundo o CM apurou, terá ascendido aos 50 mil euros.
Já a 8 de Julho, o Banco Totta e o Banco Nacional de Crédito Imobiliário, em Aveiro, foram também assaltados por dois indivíduos, no espaço de uma hora. Os assaltantes conseguiram escapar, depois de um tiroteio com a polícia, de que resultou um agente ferido sem gravidade.
Existem diversas semelhanças entre o modo de execução destes quatro assaltos que levam a pensar que tenham sido perpetrados pelo trio detido ontem. Nestes roubos, os assaltantes apresentavam-se sempre com o rosto descoberto, utilizando apenas perucas, falavam em diversos idiomas, ou em português com sotaque estrangeiro, usavam armas de grande calibre e furtavam, além do dinheiro, as cassetes do sistema de videovigilância, que registaram os assaltos.
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