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Correio da Manhã

Portugal
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GANHOU O NOME DA PROFISSÃO

“O meu nome é José Rodrigues, fui pedreiro toda a vida e é daí que vem a minha alcunha de Zé Pedreiro”. Tem 69 anos, nasceu em Tondelinha, Viseu, e começou a trabalhar aos 12 anos.
4 de Julho de 2004 às 00:00
“Comecei muito novo e sem experiência de vida. Deixei a escola porque tinha a necessidade de ganhar dinheiro para ajudar no sustento da família”, conta José Rodrigues, que nunca teve “medo do trabalho”.
“Deixei a escola aos 12 anos, quando acabei a terceira classe e, talvez por influência do meu pai, que era pedreiro, acabei por entrar para esta profissão, tal como os meus dois irmãos mais velhos”, conta.
O primeiro ordenado de José Rodrigues foi de “oito escudos por dia, quando trabalhava como servente na construção do quartel do Regimento de Infantaria 14, em Viseu”.
“Isto agora é diferente, as máquinas vieram facilitar-nos a vida. Noutros tempos, tínhamos de fazer tudo à mão e os trabalhos demoravam mais a ficar concluídos por causa disso”, recorda o pedreiro.
Hoje, começa a trabalhar às 08h00 e acaba às 17h30, mas quando era mais novo “pegava de manhã cedo e muitas vezes só ia para casa depois do sol se pôr”.
O pedreiro, apesar de levar quase seis décadas de profissão, ainda tenciona trabalhar mais um ano. Depois, pendura o martelo e o ponteiro. “É enquanto espero que a minha mulher se reforme”, afirma, com ar cansado de muito trabalhar.
José Rodrigues, de todos os pedreiros da sua família, é o único que ainda continua no activo mas, depois de se reformar já tem destino certo. “Vou-me dedicar à agricultura”, afirma.
Um pedreiro não é um trolha e o sexagenário faz questão de explicar as diferenças: “Um pedreiro tem de fazer os trabalhos de cantaria, isto é, trabalhar a pedra, colocar tijolos e fazer as vigas de suporte dos edifícios, a que chamamos cofragem; enquanto um trolha é mais especializado nos trabalhos de acabamento de um edifício”.
O pedreiro refere que o trabalho de cantaria está a desaparecer, “porque os construtores optam pela utilização de tijolo, devido a ser mais barato e uma casa demorar menos a ser construída assim do que se fosse feita em pedra”.
No entanto, “um bom artista faz os trabalhos desde que começam as fundações até que a casa, ou prédio, esteja acabada, porque se fizermos um bom trabalho o patrão dá-nos sempre mais que fazer”, explica José Rodrigues.
Desde que começou a trabalhar nunca desempenhou outras funções que não fossem as de pedreiro, “à excepção do início em que foi servente da construção civil para poder aprender a arte”.
“Sou um viciado nesta profissão, foi o que eu sempre quis fazer. Depois de começar fiquei viciado no trabalho e nunca quis fazer mais nada”, refere José Rodrigues, explicando que “podia ter tido trabalhos mais ‘leves’, como pintor da construção civil”, mas depois de as experimentar não gostou e regressou à tradição da família.
Na família de José Rodrigues todos trabalham na construção civil. “O meu pai era pedreiro, os meus irmãos e eu, por influência dele, também somos, explica”.
“Na minha família acho que só a minha mãe é que não trabalhou neste ramo”, afirma com um sorriso ‘Zé Pedreiro’.
”Agora está na altura de dar a vez aos mais novos, mas isto está complicado porque neste ramo somos cada vez menos e cada vez mais velhos” conclui José Rodrigues, o homem que ganhou o nome da profissão.
UM CHEFE COM MAU FEITIO
Depois de quase 60 anos a trabalhar na construção civil, a vida de José Rodrigues é fértil em episódios caricatos. Entre eles, o pedreiro destaca um caso que se passou com um mestre de obras com quem trabalhou pouco tempo depois de ter entrado para a profissão. “Era uma pessoa com muito mau feitio e, como nós recebíamos à semana, quando chegava a sábado ele dizia sempre que nos ia pagar o que nos devia e que nos despedia. Na realidade nunca mandou ninguém embora. Era a forma que ele encontrava para nos motivar, só que um dia chegou ao pé de mim e perguntou-me quanto dinheiro eu queria. Respondi-lhe que ele tinha de me dar o dinheiro todo porque era eu que me queria vir embora”.
B.I.
O número de pedreiros na construção civil tem vindo a diminuir ao longo dos anos. As máquinas que facilitam o trabalho, o elevado preço da mão-de-obra e o gradual envelhecimento destes ‘artistas’, têm obrigado os trabalhadores a optar por outras funções dentro do ramo da construção civil.
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