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Correio da Manhã

Portugal

GARGANTA RASGADA

Estão envoltas num profundo mistério as razões que terão estado na origem da rixa, ocorrida na madrugada de domingo no Marco de Canavezes, que vitimou um cidadão guineense e provocou ferimentos graves num homem a quem a vítima mortal estaria, alegadamente, a fazer segurança.
16 de Setembro de 2003 às 00:00
A viúva e uma das três filhas de Abdu Sanhã dos Santos, que vivia em Marco de Canavezes há mais de 20 anos
A viúva e uma das três filhas de Abdu Sanhã dos Santos, que vivia em Marco de Canavezes há mais de 20 anos FOTO: Luís C. Ribeiro
Os factos ocorreram numa sucateira na estrada nacional que liga Marco de Canavezes a Amarante. A vítima mortal, Abdu Sanhã dos Santos, 43 anos, natural de Bissau, Guiné, residia há mais de 20 anos em Marco de Canavezes trabalhando na Padaria Monforte, na panificação e como motorista. Sucumbiu a golpes de navalha no pescoço no terraço ao lado de uma rulote, deixando no chão um enorme charco de sangue.
O dono da sucateira, Adão Fernando Pinheiro Moreira, 42 anos, natural de S. João da Folhada, Marco de Canavezes, foi atingido com um tiro na cabeça e golpeado com uma arma branca, um pouco por todo o corpo. Segundo um vizinho do sucateiro, "dá a sensação de quem fez isto o queria ver sofrer, porque caso contrário tinha-o eliminado de uma vez como fizeram com o guineense.
De acordo com a mulher do guineense, Ana Maria dos Anjos Costa, o sucateiro veio chamar o marido: "Bateu à porta e pediu-me para falar com ele. Disse-lhe que precisava de descansar, ao que o outro retorquiu que fosse com ele dar uma volta que não demorariam. Entregou 50 euros ao meu marido, que lhe devia de um trabalho, virou-se para mim e disse-me: “Eu levo o Santos comigo, mas não o levo para o mau caminho, pode ficar sossegada. Quanto o voltei a ver estava morto", explicou.
As vítimas foram encontradas por alguém que circulava na estrada e que deu de imediato o alerta e prestou os primeiros socorros. Uma viatura particular transportou o sucateiro, que ainda apresentava sinais de vida, para o Hospital de Penafiel de onde, devido à gravidade dos ferimentos, foi evacuado para o Hospital de Santo António, no Porto, onde foi sujeito a uma intervenção cirúrgica.
A GNR do Marco de Canavezes tomou conta da ocorrência, mas as investigações estão já a ser conduzidas pela PJ do Porto que terá encontrado no local uma arma branca junto ao corpo do guineense. Não foi encontrada qualquer arma de fogo nem o projéctil que terá atingiu o sucateiro.
"ELES ANDAVAM SEMPRE JUNTOS"
Segundo a viúva, Fernando Moreira e Sanhã Santos conheceram-se há três anos e praticamente andavam sempre juntos. Almoçavam, lanchavam e jantavam muitas vezes no mesmo sítio. “Eram tão amigos que eu quando queria falar com o meu marido telefonava para o telemóvel do Fernando, porque o meu marido andava sempre com o dele desligado. Tanto quanto sei os negócios eram de compra, venda e troca de carros.
Passei a noite toda em sobressalto, fui várias vezes à padaria saber se ele já tinha chegado ao trabalho. Quando de manhã me disseram para ir ao hospital tive logo um mau pressentimento. Fui ao local onde as coisas aconteceram, porque queria ver com os meus olhos o que tinha acontecido. Já lá estava a Polícia a interrogar toda a gente”.
Na aldeia de S. João da Folhada o silêncio impera, mas um habitante foi sussurrando que o sucateiro terá dito “que andava a ser perseguido e ameaçado”. No entanto, segundo a viúva, "não houve luta, estava tudo direito. Apenas sangue, dentro da rulote, e no local onde ele caiu e acabou por morrer com as mãos agarradas ao pescoço". A ser assim, os dois homens terão sido apanhados desprevenidos ou quem matou era da confiança das vítimas.
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