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Correio da Manhã

Portugal
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GAROTO BALEADO EM ESCOLA

Foi ‘apenas’ um chumbo de pressão de ar, é verdade, mas Ana Paula Sombreiro não quer saber de questões técnicas: “O meu filho tem 9 anos e foi atingido a tiro quando estava na escola, no recreio. Foi só numa mão, mas podia ter sido num olho”.
21 de Maio de 2003 às 00:00
E é isto que importa para esta mãe, moradora em Alhos Vedros, concelho da Moita, que recebeu a notícia quando estava no trabalho.
Ao princípio da noite de ontem, horas depois do disparo, ocorrido cerca das 13h00, Ana Paula ainda não tinha recuperado do susto: “Dói-me a cabeça, estou cansada, não sei o que pensar”. Mas há uma coisa que ela sabe: “Amanhã (hoje) quando for levar o Luís Carlos à escola, vou falar à directora de turma”.
Para Ana Paula, preocupante também é que foi um outro garoto, de 11 anos, o autor do disparo - de nome João e igualmente aluno da Escola Primária n.º 1 de Alhos Vedros, e já com amplo historial de mau comportamento, na escola e fora dela. “O pai dele veio já ter comigo, pedir desculpa. Mas espero que encontre uma solução”.
Luís Carlos estava a brincar no recreio com outros garotos quando repararam que, no exterior, do outro lado da vedação, andava o João, que mais uma vez tinha faltado às aulas. “Ele tinha uma ‘pressão de ar’”, mas a espingarda não assustou o Luís Carlos, não obstante o João já ter feito várias demonstrações com a arma, disparando contra a porta da cantina da escola, embora sem chumbo.
“Eu nunca acreditei que ele disparasse”, diz Luís Carlos, mas a verdade é que o João disparou, segundos depois de uma garota lhe ter dito: “Queres disparar? Então dispara, vá lá”. E ele disparou. Luís Carlos só viu a miúda afastar-se num ápice, fugindo ao apontar da espingarda, e o pequeno projéctil foi encontrá-lo a ele. Sentiu uma pancada na mão, depois veio uma dor intensa, o inchaço, o Hospital do Barreiro.
“Eu não chorei e não tenho medo de voltar à escola”, salienta, agora, sabendo que hoje pode reencontrar o João. Mas a marca ainda lá está, a marca de um tiro aos 9 anos.
UMA HISTÓRIA COMPLICADA
“A senhora directora da escola não está e temos ordens para não dizer nada”. As palavras são das funcionárias da Escola Primárian.º 1 de Alhos Vedros, mas é difícil esconder aquilo que toda a vila sabe: “O João anda sempre a fazer asneiras”. É um gato escondido de rabo de fora, num garoto que já há muito devia ter deixado o 4.º ano e que este ano continua pelo mesmo caminho, de faltas, mau comportamento e agressões. Mas a verdade é que sabe o que há-de dizer. E na GNR declarou que andava aos tiros para o ar ou aos pássaros, não apontou a arma intencionalmente, que o tiro foi um acaso. Um ‘acaso’ que o fez deixar rapidamente o local do disparo, mas não sem antes ter o cuidado de esconder a arma na vegetação.
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