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Correio da Manhã

Portugal
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GNR sem meios para fiscalizar 15 mil camiões

Quantos mais anos tenho disto [fiscalização rodoviária], menos sei". O desabafo do militar de um Destacamento de Trânsito da região Centro espelha o sentimento geral dos patrulheiros da GNR que se sentem "impotentes" para fiscalizar os veículos pesados equipados com tacógrafos digitais. Além da falta de formação, os militares da GNR não dispõem do cartão que permite a leitura dos dados do tacógrafo, um equipamento que está atrasado três anos.
12 de Julho de 2009 às 00:30
Militares da GNR não conseguem controlar os tempos de descanso e condução dos camionistas
Militares da GNR não conseguem controlar os tempos de descanso e condução dos camionistas FOTO: Sérgio Lemos

Devido a esta falha, estima-se que 15 mil camiões circulem nas estradas sem serem controlados em termos de períodos de condução e velocidade. "É uma vergonha. Todos os países da Europa têm este equipamento e nós não", refere José Alho, da Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda: "É mais uma prova da falta de investimento nas forças de segurança".

A GNR realiza agora poucas operações inopinadas de fiscalização aos veículos pesados porque os militares sentem "vergonha" e "são facilmente enganados" pelos motoristas. Estes podem assim infringir as normas que os regulam sem serem penalizados e pôr em perigo a segurança rodoviária.

"PATRÕES APROVEITAM PARA EXPLORAR"

A falha na fiscalização dos veículos pesados também é fortemente condenada pela Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações (FECTRANS), para quem a situação "pode levar a que os motoristas sejam explorados pelos patrões". Para Vítor Pereira, dirigente da FECTRANS, é "lamentável que as autoridades não disponham de meios para poder fazer uma fiscalização competente e eficaz". "Algumas empresas aproveitam para incentivar os motoristas a cometerem ilegalidades", diz Vítor Pereira, acrescentando que alguns camionistas "fazem as horas previstas na lei num camião com tacógrafo digital e depois passam para outro. Não há controlo nenhum." Além da fiscalização deficiente, alguns camionistas ainda conseguem viciar o tacógrafo digital, colocando um íman na caixa de velocidade.

PATRULHEIROS SEM FORMAÇÃO PARA ANALISAR DADOS

Quando em 2006 os camiões passaram a dispor de tacógrafos digitais, o Ministério da Administração Interna prometeu à extinta Brigada de Trânsito que os militares iriam ter formação para aprender a lidar e a perceber a informação disponibilizada pelo equipamento. Passados três anos, os patrulheiros continuam "sem perceber nada do assunto". "Ainda estamos à espera que nos chamem", ironiza José Alho. Segundo o CM apurou, há cinco anos alguns militares da ex--BT receberam formação em Espanha sobre os novos tacógrafos. "São duas dezenas mas têm de contar com a boa vontade do motorista", diz fonte da GNR. É necessário que ele imprima o registo do tacógrafo e basta dizer que não tem papel para o não fazer.

PORMENORES

TACÓGRAFO DIGITAL

O tacógrafo digital é um aparelho de controlo que indica, regista e armazena automaticamente dados relativos à condução dos veículos, aos tempos de trabalho e de repouso dos seus motoristas.

CARTÕES

Além de um mostrador digital, o tacógrafo dispõe de duas ranhuras para inserção do cartão do motorista, cartão da empresa e o cartão de controlo – o tal que a GNR ainda não tem. A maioria dos veículos pesados nacionais ainda usa o tacógrafo analógico.

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