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Correio da Manhã

Portugal
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GOVERNO PRIVATIZA MAIS 25 HOSPITAIS PÚBLICOS

Mais 25 hospitais públicos vão passar a ter gestão privada, juntando-se aos 31 SA a partir de Janeiro de 2005, altura em que é criada a ‘holding’ que vai substituir a Unidade de Missão, apurou o CM. Esta medida colhe fortes críticas por parte de vários sectores, que acusam o governante de empresarializar o sector da Saúde em Portugal.
12 de Outubro de 2004 às 17:47
“Esta é claramente uma via para privatizar a saúde e entregá-la nas mãos das seguradoras e dos grandes grupos económicos. Esta privatização da Saúde constitui um risco porque, como sociedade anónima, pode ir à falência e o seu capital social vendido”, acusa o candidato à Ordem dos Médicos José Boquinhas.
Esta empresarialização da Saúde significa, na sua opinião, um modelo “para resolver apenas os problemas das Finanças e não os da Saúde”.
Boquinhas sublinha que o Acordo Colectivo de Trabalho para os SA prevê uma “redução de 30 por cento dos salários e aumento do horário de trabalho dos médicos, o que significa que este é um sinal evidente que vão vender os hospitais ao sector privado com mão-de-obra médica barata”.
Manuel Delgado, presidente da Associação Portuguesa das Administrações Hospitalares, tece também fortes críticas. “Temo que se esteja a cometer erros porque não há evidências que os SA são melhores que os públicos. Pelo contrário, os resultados são pouco animadores em termos de custos e produção”,
Este ano, os SPA (unidades públicas) apresentaram, segundo Manuel Delgado, melhores resultados do que os SA, “demonstrando que não há credibilidade quanto aos resultados dos de gestão privada”.
O representante dos administradores sublinha que com esta medida “estamos perante o perigo de o Governo manipular os resultados e controlar, através da ‘holding’, os hospitais em termos financeiros, administrativos e políticos. Isto é um retrocesso e era impensável acontecer até há poucos anos”.
De fora dos 51 hospitais SA ficam, para já, os hospitais universitários e 39 públicos, que representam 30 por cento da rede pública.
ANTÓNIO BENTO, PRESIDENTE DO SINDICATO INDEPENDENTE DOS MÉDICOS: 'NÃO DÃO RESULTADOS FIÁVEIS'
Correio da Manhã – O que pensa do aumento dos hospitais SA?
António Bento – Não concordo com uma gestão que apresenta números que não são fiáveis só para beneficiar do financiamento, que é feito pelo número de internamentos, consultas, intervenções e hospital de dia.
– Quer concretizar?
– É o caso de um grande hospital SA que declarou mais cirurgias que anestesias e depois obrigaram os médicos anestesistas a triplicar o número de intervenções.
– Sabe de outras irregularidades?
– Um hospital diz que fez oito mil intervenções e no ano seguinte aumenta para 500 mil. Outro exemplo: a realização de 18 mil electrocardiogramas para ser cobrada a taxa moderadora do exame e da consulta de cardiologia que não houve.
– Isso é uma fraude.
– É, mas assim cobram quatro euros de taxa moderadora ao doente e mais 52 euros ao ministério da Saúde.
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