Bruno era um miúdo em 17 de Dezembro de 1997, a madrugada de chuva em que se estreou no crime ao lado do pai. Cumpriu pena com um amigo pelos 912 mil euros roubados da carrinha de valores em Boliqueime, no Algarve, e o pai, Amadeu Santos, abandonou-o à sorte na cadeia. Foi, em 2002, absolvido por o filho não testemunhar e nunca irá pagar pelo crime. A Judiciária prendeu-o quinta-feira por tráfico de droga – e, em casa, guardava objectos ligados ao roubo. Além de ter emoldurada a capa do Correio da Manhã sobre o famoso ‘assalto do século’.
Dez anos depois, voltam a cruzar-se os destinos de pai e filho. Bruno, hoje com 27 anos, está há dois preso por tráfico de droga; Amadeu controlava a sua própria rede e há muito que era investigado pela PJ. Na noite de Fim de Ano, quatro correios carregados de droga aterraram na Portela. Os homens, entre os 25 e os 61 anos, traziam do Brasil um quilo de cocaína em bolotas alojadas nos respectivos estômagos. E o líder, Amadeu Santos, seria o destinatário da droga.
O CM apurou que a investigação passou em grande parte por escutas telefónicas e outros meios de prova – a PJ acredita que Amadeu, 55 anos, é “o líder do pequeno grupo criminoso” e que terá sido agora desmantelado. Por isso apanharam-no na quinta-feira, em Lisboa. Amadeu vive no Algarve com uma brasileira – e, ao final da tarde de ontem, continuava a ser sujeito ao interrogatório do juiz Carlos Alexandre, do Tribunal Central de Investigação Criminal de Lisboa.
As buscas por tráfico de droga levaram os inspectores a encontrar, dez anos depois, objectos ligados ao assalto milionário de Boliqueime – provas que poderiam ter sido essenciais ao julgamento de 2002. Só que, nessa altura, Amadeu foi absolvido – e nunca poderá ser julgado novamente pelo crime. Daí os troféus guardados – só deixa agora de ser intocável pelo tráfico.
Para a história fica o ‘assalto do século’, como ainda hoje é conhecido. Bruno era um rapaz de 17 anos no dia em que reencontrou o pai – em Fevereiro de 1997. Vivera sempre com a mãe, jurista no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, até à temporada em casa da avó Vitória que mudou para sempre a sua vida.
Amadeu regressou do Brasil e, em Dezembro, recrutou o filho e um amigo para o violento assalto de Boliqueimeque o deixou rico. Os rapazes foram apanhados.
Amadeu Santos, 55 anos, teve o filho Bruno com uma jurista do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, mas logo depois partiu para o Brasil. Era tipógrafo. Voltou a Portugal e a Boliqueime em Fevereiro 1997, quando reencontrou o filho e o iniciou no crime – Bruno tinha 17 anos. Abandonou-o preso e passou quatro anos no Brasil, Austrália e França. Foi extraditado mas absolvido do assalto milionário. Vive no Algarve com uma brasileira e a PJ acredita que lidera uma rede de tráfico.
ABANDONOU O FILHO NA CADEIA
A carrinha blindada chegou carregada de dinheiro à casa-forte no Algarve, no sítio da Abelheira, Boliqueime, às 03h00 de 17 de Dezembro de 1997. Chovia a cântaros. Quando os tripulantes começaram a descarregar os sacos de dinheiro, os três assaltantes avançaram de caras tapadas: Amadeu, de caçadeira, dava ordens. O filho Bruno e o amigo Marco, pistolas em punho, obedeciam. Roubaram 183 mil contos – 912 mil euros. Três semanas depois, a PJ recebeu uma denúncia por roubo de uma caçadeira numa moradia – Marco fizera lá umas obras e era suspeito. Em casa tinha maços de notas com as cintas do banco, 277 contos, e confessou tudo. Mas a PJ já só encontrou Bruno noutra casa – o pai tinha fugido do País. Os jovens juraram que Amadeu só lhes deixou 500 contos e foram presos. Responderam no Tribunal de Loulé. Sozinhos. Arriscavam 15 anos de cadeia, mas, atendendo à idade, apanharam quatro. Saíram ao fim de dois.
RIU-SE NA CARA DOS JUÍZES DE LOULÉ
Amadeu Santos fugiu para o Brasil depois do ‘assalto do século’ e de vez em quando escrevia à mãe, Vitória, para a vivenda de Boliqueime. Durante o julgamento de Bruno e Marco, também escreveu da Austrália a agradecer o empenho do advogado na defesa do filho. Ao todo, andou quatro anos fugido, até ser preso em França, em Abril de 2001, numa operação stop, por documentos falsos. Foi condenado a oito meses de prisão e veio extraditado para Portugal, onde foi julgado pelo roubo dos 183 mil contos. Acabou por devolver metade do dinheiro mas não havia uma prova contra si – só os testemunhos de Bruno e Marco. Na altura em que Amadeu foi julgado, entre 15 e 28 de Maio de 2002, já os dois rapazes tinham saldado contas com a Justiça. Estavam no estrangeiro. Não foram a Tribunal repetir o que disseram quando foram julgados – e só isso podia condenar o arguido. Foi absolvido e riu-se na cara da juíza presidente, Helena Santos, que deixou um desabafo: “Tenho a firme convicção de que não foi feita Justiça.”
TRAFICANTES PRESOS
Três dos quatro correios de droga que trabalhariam a mando de Amadeu Santos já recolheram em prisão preventiva. São portugueses, têm todos entre os 25 e 61 anos, e apenas um aguarda julgamento em liberdade. Amadeu só foi preso três dias depois, quinta-feira, e continuava ontem à tarde a ser ouvido pelo juiz de instrução.
ARMAS E VIATURAS
Na sequência das primeiras quatro detenções, segunda-feira, no Aeroporto da Portela, e da última, de Amadeu Santos, três dias depois, a Direcção Central de Investigação ao Tráfico de Estupefacientes da Judiciária avançou para buscas em vários pontos do País. Foram apreendidos dinheiro, armas e viaturas.
USAM DIAS DE FESTA
As redes de tráfico utilizam dias festivos para tentar passar droga nos aeroportos sem serem controladas pela polícia ou autoridades alfandegárias. A PJ está atenta e os últimos quatro traficantes ‘caíram’, na Portela, em dia de Passagem de Ano.
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