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Correio da Manhã

Portugal
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Guerra ao caviar português

A Brigada Fiscal da GNR da Figueira da Foz varreu o rio Mondego, na Figueira da Foz, nos últimos dois dias, para combater a pesca ilegal de meixão (enguias bebés). Em resultado, apreendeu 43 redes ilegais e seis quilos de ‘caviar’ português, tudo avaliado em mais de 45 mil euros.
24 de Janeiro de 2007 às 00:00
Esta actividade ilegal é comum em Portugal, entre Setembro a Junho, daí a maior atenção dada pelas autoridades policiais nesta época ao combate à pesca deste ‘ouro branco’ dos rios. A operação na Figueira da Foz envolveu – além da Brigada Fiscal (BF) – o Destacamento Marítimo, um total de 40 homens e centrou-se num local conhecido como “Cinco irmãos”.
Os semi-rígidos recolheram as “redes mosquiteiras” submersas, com a ajuda de um cabo, num percurso com quatro quilómetros de extensão. As reduzidas medidas das malhas “apanham tudo pelo caminho, até outras espécies animais”, explica o comandante da BF, Armando Videira. Nas margens do rio, dezenas de populares assistem à operação. “Desconfiamos que alguns são pescadores ilegais, mas não temos provas para os acusar”, lamenta o militar. Os infractores são sempre os mesmos, mas escondem-se a coberto da noite e do silêncio: “Ninguém sabe de nada, ninguém viu nada!”, desabafa Armando Videira.
“Esta é uma actividade altamente rentável e pouco censurável pela comunidade”, salienta o comandante da BF, referindo-se ao facto dos pescadores ilegais “não terem a consciência dos prejuízos ambientais que causam” e das próprias populações “anuírem com este crime ambiental sem o denunciar”. Jorge Gil, comandante do Destacamento Marítimo, confirma que é “muito difícil apanhar alguém. Eles andam a altas velocidades à noite e conhecem muito bem esta zona do rio Mondego”.
“Daqui a uma semana já cá estão novas redes. Mas pelo menos sabemos que hoje demos um rude golpe nesta actividade ilícita”, diz Jorge Gil, enquanto o 1.º sargento Cardoso manobra com cuidado o semi-rígido em direcção a mais redes ilegais. Uma destas redes, com 40 metros de comprimento, pode apanhar em média, por dia, meio quilo de meixão.
José Luís Ribeiro, investigador dos Estudos Geográficos da Universidade de Coimbra, lamenta que “a reprodução desta espécie esteja ameaçada” e que “todo o ecossistema se encontre em risco”. “Os espanhóis querem o meixão vivo para o colocar em aquicultura.
Num mês, conseguem enguias com 30 a 40 cm”, explica. Para o investigador, Portugal “vê os seus recursos literalmente roubados. O Governo deveria criar uma ‘task-force’ para este assunto e controlar melhor o problema que é desastroso e muito grave”. Por outro lado, o Estado, que emite algumas licenças para pesca de meixão, devia suspendê-las, deixar crescer a espécie e aumentar as penalizações para quem prevarica”, conclui José Luís Ribeiro.
INFRACTORES SUJEITOS APENAS A UMA COIMA
- O meixão é uma enguia juvenil, com quatro a cinco cm de comprimento, de cor transparente.
Pertence à categoria dos diádromas e à subcategoria dos catádromas, ou seja, animais que vivem no estado adulto nos rios e desovam no mar. A enguia é comum nos rios europeus.
- A recolha de redes e apanha de meixão envolveu 40 elementos da Brigada Fiscal e do Destacamento Marítimo da Figueira, Cascais e Matosinhos, apoiados em terra por viaturas todo-o-terreno e na água por botes semi-rígidos.
- Nesta acção foram apreendidas 43 redes ilegais e apanhados seis quilos de enguias bebés, posteriormente devolvidas ao rio Mondego. Estima-se que cada rede custe mil euros.Foram entregues ao tribunal e serão queimadas.
- A pesca do meixão está proibida desde 2001, mas os prevaricadores sujeitam-se, à face da actual lei, apenas ao pagamento de uma coima. Na sequência da operação foi feita queixa contra desconhecidos. A maior parte do ‘caviar’ português destina-se ao mercado espanhol.
RIQUEZA DOS RIOS
400 EUROS O KG
O ‘caviar’ português atinge no mercado ilegal valores que rondam os 400 euros por quilo e mesmo mais. Em Espanha é um petisco muito apreciado, especialmente como paté. É também criado em aquiculturas. Nalguns países asiáticos, como o Japão, entra em pratos requintados. As autoridades desconfiam da existência de redes de captura e venda ilegais.
LEI MAIS DURA
O rio Mondego é muito procurado pelos pescadores ilegais, devido aos ‘braços’ que tem junto à Figueira da Foz. No passado, o anterior comandante da Brigada Fiscal local, Vítor Rodrigues, reclamou outra legislação, mais dura e punitiva face aos crimes ambientais perpetrados. “Está-se a destruir património de todos nós”, referiu na altura.
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