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Correio da Manhã

Portugal

Há 11 dias sem comer

É uma luta contra a resignação e contra “as injustiças sociais que comete a geração de pataratas que nos governa”. Manuel Alberto Torres Calçada, paraplégico, de 43 anos, vai no 11.º dia de greve de fome, no lar José Joaquim Esteves, em Monção, por considerar que devia estar numa unidade especializada, como a de Alcoitão.
20 de Novembro de 2006 às 00:00
“Fui colocado aqui por incompetência e má vontade dos responsáveis de diversos organismos dos ministérios da Saúde e da Segurança Social”, diz Manuel Calçada, referindo que, “apesar das limitações da deficiência, se houvesse vontade, podia continuar a viver de forma independente, como aconteceu ao longo de mais de 20 anos”.
Manuel Calçada ficou paraplégico em consequência de um acidente de viação, há 22 anos. Atirado para uma cadeira de rodas, continuou, no entanto, a viver sozinho e a fazer “uma vida praticamente normal”.
“Eu sempre fui a todo o lado, às compras, ao banco e até à discoteca, vestia-me sozinho, enfim, tinha uma vida totalmente independente”, disse ao CM, sublinhando que “quando a prisão de movimentos alastrou, se tivesse sido internado numa unidade de saúde especializada, ainda hoje poderia ter essa vida independente”.
Manuel Calçada passa 24 horas por dia na cama, sempre de barriga para baixo, situação que lhe causa uma enorme revolta.
“Estou aqui, sempre assim, nesta posição, com umas coisas aqui à volta com que me ocupo e vou escrevendo. Agora até estou a começar a escrever os postais de Natal aos meus amigos”, diz, acrescentando que “de nada vale estar num quarto muito bonito, com belas vistas, se a gente não pode mexer mais do que as mãos e a cabeça”.
“A minha luta é para que me internem numa unidade de saúde apropriada, para ver se ainda vou a tempo de viver alguns anos com alguma mobilidade. Se não me quiserem internar, então metam-me na cadeia e não num lar da terceira idade, porque, ao menos, na cadeia encontro pessoas da minha idade”, desabafa, revoltado. SOBREVIVE A TOMAR CHÁ, ÁGUA E CAFÉ
Às horas do pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar, a funcionária do Lar José Joaquim Esteves, da Santa Casa da Misericórdia de Monção, aparece no quarto de Manuel Torres Calçada com o tabuleiro da comida.
Ele agradece, mas usa apenas o que é obrigatório para quem está em greve de fome: a água, o chá e o café. “Vou continuar enquanto aguentar”, diz o paraplégico, sublinhando que, desta vez, está disposto a ir “até às últimas consequências”. Manuel Calçada assinou uma declaração em que afirma que está disposto a ir “até à morte”.
PERFIL
Manuel Alberto Torres Calçada nasceu em Viana do Castelo faz 43 anos no próximo sábado. A sua vida mudou radicalmente no dia 13 de Abril de 1984, quando um violento acidente de carro o atirou para uma cadeira de rodas.
Apesar de paraplégico, viveu de forma independente ao longo de mais de 20 anos, sem precisar de ajuda para se vestir, calçar ou até para tomar banho. Um brusco agravamento da sua estrutura neurológica obrigou-o a viver acamado e, pior ainda, sempre na mesma posição – de barriga para baixo. Anseia por tratamento especializado, para ver se ainda recupera alguns movimentos, mas a situação está complicada.
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