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Correio da Manhã

Portugal
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Há cada vez mais casos de mulheres maltratadas

Quando chegou ao posto da GNR de Almeirim para apresentar queixa contra o marido por agressões físicas, pela primeira vez, Paula já carregava o martírio de 25 anos de casamento e de insultos quotidianos.
7 de Março de 2005 às 00:00
Paula, pouco mais de 50 anos, está a ser acompanhada pela equipa do Núcleo Mulher e Menor (NMUME) da zona onde reside, formada por três agentes da GNR de Almeirim – duas mulheres e um homem, que começam por registar a queixa e marcam um dia para ouvir o depoimento.
Não é caso único em Portugal: nos primeiros onze meses de 2004, foram registados 6220 casos de violência doméstica entre casais e 286 contra crianças, sendo Porto, Braga, Aveiro e Viseu os distritos com mais queixas. As vítimas são, na sua maioria, do sexo feminino (5900) e com mais de 25 anos. E os agressores são quase sempre homens (6063).
No dia marcado, uma sexta-feira de manhã, Paula compareceu no posto da GNR, ainda com as marcas da tareia que tinha levado duas semanas antes. A cara negra e as memórias de 25 anos de maus tratos psicológicos que culminaram em agressões físicas dominam o relato que faz às autoridades: “Ameaçou que me matava e deu-me um murro que me fez cair para cima do lava-loiça. Apertou-me o pescoço. Julguei que morria, dei-lhe um pontapé no meio das pernas e arranhei-lhe a cara. Empurrou-me para o chão e pôs-me um pé no peito. Dei-lhe outro pontapé e comecei a atirar-lhe coisas. Ele ficou em casa e eu fui para o hospital”.
Interrogada sobre as razões que só agora a levaram a apresentar queixa, aponta como justificação as filhas – tem duas – e a “imagem” quem tem a manter onde mora.
Mas Paula não é a única mulher a ser acompanhada pelo NMUME de Almeirim. Lúcia, trinta e poucos anos, foi autenticamente sequestrada pelo companheiro, o agressor: estava proibida de falar com a família e amigos, foi-lhe tirado o telemóvel, era violada e agredida com frequência, e nunca ia a lado nenhum sem vigilância apertada.
A excepção eram as idas ao tribunal, por causa da custódia da filha (de um primeiro casamento), em que ele ficava no carro. Libertou-se no dia em que elementos da GNR a ajudaram a fugir pelas traseiras do tribunal.
Durante alguns tempos ficou instalada num lar, agora está numa instituição, já trabalha e a sua batalha diária é para poder visitar a filha algumas horas no infantário, e, quem sabe, um dia requerer a sua custódia.
POLÍCIA TENTA ACORRER ÀS VÍTIMAS
A assustadora realidade da violência doméstica no nosso país – 6220 casos em 2004 – alertou as autoridades para a necessidade da criação de unidades especializadas. O Núcleo Mulher e Menor (NMUME) de Almeirim, por exemplo, tem-se deparado com inúmeras situações dramáticas e os agentes fazem os possíveis por ajudar as vítimas.
O NMUME, que está na dependência da Secção de Investigação Criminal da GNR, surgiu no final do ano passado e já funciona nas brigadas territoriais de todos os distritos do País. O objectivo é investigar crimes “relacionados com as problemáticas das mulheres e dos menores enquanto vítimas e promover as acções de apoio necessárias”.
Trabalha directamente com instituições como a Associação de Apoio à Vítima, a União das Mulheres Atitude Resposta, a Comissão de Igualdade e Direitos das Mulheres, o Instituto de Apoio à Criança e o SOS Criança.
Para pertencer a estas equipas especiais, os agentes da GNR, que já têm formação em investigação criminal, aprofundam os seus conhecimentos na área legislativa, em psicologia da criança, criminologia e vitimologia, e na caracterização da violência doméstica e seus principais elementos.
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