Pedro saía das aulas e ia para os copos. Aos 13, 14 anos, as idas aos concertos de música com os amigos eram uma desculpa para se embebedarem. “Cervejas de litro, ginja, o interesse era misturar cada vez mais bebidas, para ‘bater’ mais”, recorda. Além de ser uma forma de se “evidenciar”, o álcool servia para desinibir, “para conhecer miúdas”. O apoio da família era praticamente inexistente: “Só criticavam, diziam que não servia para nada.”
Aos 15 anos, Pedro deixou a escola e começou a trabalhar. Sem largar a bebida, ingressou na carreira militar com 19 anos. “Era bastante agressivo, tive problemas com a Polícia, tudo por causa da bebida.” As noitadas prolongavam-se até “cair para o lado” e várias vezes acabavam em sexo – fortuito ou a pagar. “Sou tímido, a bebida desinibia-me.” Até que alguns amigos o alertaram para o facto de precisar de ajuda. “Sempre pensei que conseguia deixar de beber, se quisesse. Estava uma semana sem tocar numa pinga de álcool, mas depois voltava ao mesmo.” Começou a ter problemas no trabalho e a namorada deixou-o. Começou a ir a reuniões dos AA, mas passado um tempo teve uma recaída. “Tinha vergonha e frustração.”
Pedro pensava que era caso único, sentia-se complexado. Voltou aos AA. “Comecei a olhar-me ao espelho, percebi que havia pessoas com o mesmo problema.” Mudou de amigos e está em recuperação há ano e meio. “Hoje sei que sou alcoólico”, garante.
Com 41 anos, casou, tem um filho e não toca numa gota de álcool. Já tentou levar o pai, também alcoólico, para os AA. “Não aceita que é alcoólico e até a minha mãe diz que eu, como já não bebo, estou curado.”
Mas cura é o que não existe para a alcoolismo. Estima-se que em Portugal um milhão de pessoas beba em excesso e que 500 mil sejam dependentes do álcool. Mas poucos procuram ajuda – os AA, por exemplo, são cerca de mil. “O primeiro passo é ter consciência de que há um problema: ultrapassar a negação e a ilusão de que se consegue controlar o consumo”, explica Rui Correia, psiquiatra e presidente dos AA. O único requisito para participar numa reunião de AA “é ter problemas com o álcool e querer parar de beber”.
Foi essa vontade que levou Lucília aprocurar os AA. “A primeira vez não percebi como é que me podiam ajudar e só quando cheguei ao desespero é que voltei”, recorda. Aos 65 anos, Lucília garante que não se incomoda se alguém estiver a beber na mesa ao lado: “A questão não é colocar a rolha na garrafa, o problema sou eu.” Durante 30 anos, o álcool era um “escudo invisível, que imunizava e tinha a capacidade de não me fazer sentir os problemas”. Entre a Alemanha e Portugal, até chegou a misturar uísque com tranquilizantes. “Até vinho de tempero me servia.” Hoje tem orgulho em ser alcoólica em tratamento.
Nota: O anonimato é o “alicerce espiritual de todas as tradições” dos AA. Pedro e Lucília são nomes fictícios.
Pedro tem 41 anos, é casado e tem um filho. Começou a beber aos 13 anos com os amigos, depois das aulas e nas saídas à noite. Começou a trabalhar aos 15 e aos 19 ingressou na carreira militar, como voluntário. Há cerca de oito anos foi a uma reunião dos Alcoólicos Anónimos. Teve uma recaída. Está há ano e meio em recuperação.
ALCOOLISMO NAS MULHERES AUMENTA
Dizem os Estatutos dos Alcoólicos Anónimos que o presidente e vice-presidente não são alcoólicos e que por isso podem ‘dar’ a cara. Rui Correia, psiquiatra, é presidente há três anos. “Nos últimos anos tem aumentado o número de mulheres em tratamento e o consumo também tem variado. Antes era o vinho, hoje em dia é mais a cerveja, uísque, aguardente, ‘shots’”, explica. O clínico recorda que “não há cura para o alcoolismo, há tratamento, e um alcoólico nunca mais pode ser um bebedor social: nunca está curado”.
90 GRUPOS DE AA UNEM MIL DOENTES
Cerca de 170 membros, familiares e amigos de AA de todo o País estão reunidos no Seminário Torre da Aguilha (Carcavelos), na IV Convenção de AA. Ao todo, há 90 grupos espalhados pelo País, que congregam cerca de mil AA. A partilha de experiências, a ajuda na resolução de problemas ou o simples convívio são alguns objectivos da convenção e dos grupos de encontro. “Ninguém obriga ninguém a vir. A pessoa tem de ter vontade de se tratar. E não há recriminações, nem andamos a controlar-nos uns aos outros”, contou uma AA.
OS SINAIS
Beber só mais um copo para o caminho, embebedar-se sem querer, beber às escondidas ou mentir sobre a forma de beber, beber sozinho, ter falhas de memória, beber de manhã para curar ressacas, tremer, ter alucinações ou convulsões quando não bebe – estes são alguns dos sinais que podem indicar se alguém é alcoólico.
AS REUNIÕES
Há dois tipos de reuniões de AA. Nas abertas, os membros contam como bebiam, como descobriram os AA e como o programa os ajuda. Familiares e amigos podem assistir. As reuniões fechadas são só para alcoólicos, onde cada membro partilha pensamentos e recebe ajuda para os problemas pessoais e sobretudo para se manter sóbrio na vida do dia-a-dia.
DAR O QUE SE PODE
Os AA não pagam quotas. Nas reuniões é passado um saco, onde cada AA deixa, de forma anónima, o que pode ou quer dar – é necessário pagar alugueres de salas, comprar livros, café, refrescos, folhetos e revistas de AA. O anonimato dos pacientes é uma tradição intocável na comunidade.
PEDIR AJUDA
Se acha que tem problemas com o álcool, pode contactar os AA através do ‘site’ www.aaportugal.org, do ‘e-mail’ ajuda@aaportugal.org ou do telefone 217 162 969. Em todo o mundo há 106 227 grupos de AA e mais de dois milhões de membros, em 180 países. Há ainda os grupos de familiares (Al-Anon) e de jovens com pais alcoólicos (Alateen).
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