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Correio da Manhã

Portugal
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Homem baleado à frente das netas

Aos 70 anos, o maior prazer de Dário Correia era sentar-se à porta do seu café na Cova da Moura, Amadora, a brincar com as duas netas. Sábado não foi excepção.
5 de Setembro de 2005 às 00:00
Para além de Paloma e Iara, de dois e cinco anos, rodeou-se de outras seis crianças. Naquela tarde, Dário só cometeu um ‘pecado’: usava o seu cordão de ouro ao pescoço. E quando a carrinha passou, nem a presença das crianças o salvou – “Este já é nosso”, disseram. Arrancaram-lhe o fio e deixaram-no estendido na rua com três tiros de pistola cravados no corpo.
O drama deste cabo-verdiano começou às 18h00 na rua do Vale, no problemático bairro da Amadora. Meia hora depois, deu entrada no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, onde ontem à noite continuava a lutar pela vida.
Os dois atiradores, homens na casa dos 30 anos, de etnia cigana, passaram numa carrinha Hyundai cinzenta, com mais um homem, uma mulher e uma criança – e puseram-se de imediato em fuga.
“Chegaram de repente, pararam a carrinha e disseram: ‘É este, este já é nosso’. E puxaram-lhe o cordão com toda a força. Foi aí que o meu pai se levantou e deram-lhe logo um tiro no peito”, contou ao Correio da Manhã a filha Filomena, ainda aterrorizada.
Só que o pesadelo não acabou por aqui. “A minha vizinha tentou reagir e encostaram-lhe uma das pistolas à cabeça”. E continuou: “Voltaram a entrar no carro e desceram a rua toda virados para trás, sempre a disparar”. Dário foi atingido mais duas vezes, num pé e numa perna.
Filomena Correia, 27 anos, não acredita em ajuste de contas. “Foi só assalto. O meu pai é reformado, não faz mal a ninguém e vive do café que tem aqui na rua”.
E quanto aos agressores, diz: “Não moram aqui mas estão cá todos os dias e toda a gente no bairro os conhece. Vêm comprar droga. Eles também conhecem o meu pai por causa do café”.
Fernanda Correia, 21 anos, também é filha de Dário. Para além do pai, tem outra preocupação: a filha Iara, de apenas cinco anos, estava com o avô quando este foi atingido com três tiros.
“Foi um grande trauma e amanhã [hoje] vamos com ela ao hospital para falar com um psicólogo”, disse. O caso foi entregue à Polícia Judiciária, que procede a averiguações.
Filomena não quer pensar em vinganças, mas sempre adianta: “As coisas vão ser resolvidas de qualquer forma. E Deus não dorme”.
PORMENORES
INVESTIGAÇÃO
A PSP de Alfragide tomou conta da ocorrência e passou a investigação para a Polícia Judiciária. Segundo fonte policial, foram encontradas no chão
oito cápsulas de uma arma
de 6,35 milímetros.
MÓBIL DO CRIME
Ao que tudo indica, na origem da tragédia terá estado apenas um cordão de ouro que a vítima usava ao pescoço. Segundo uma das filhas, trata-se de um fio muito grosso, com um crucifixo, que “dá muito nas vistas”.
ESTADO CRÍTICO
Dário Correia deu entrada no Hospital S. Francisco Xavier às 18h30 e foi de imediato para o bloco operatório. Do resultado da operação sabe-se apenas que as balas não foram retiradas e ontem à noite o seu estado era considerado crítico.
ARMAS ILEGAIS
O Bairro da Cova da Moura é considerado um dos mais problemáticos dos arredores de Lisboa. Só durante os primeiros seis meses deste ano, a PSP apreendeu 14 armas de fogo no interior do bairro.
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