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Correio da Manhã

Portugal

HOMICIDA APANHADO

A Polícia Judiciária do Porto não perdeu tempo. Bastaram dois dias para deitar a mão ao indivíduo que atropelou mortalmente um angolano de 24 anos em Vila d’Este, concelho de Vila Nova de Gaia.
18 de Fevereiro de 2004 às 00:00
O alegado homicida detido ontem responde pelo nome de David e era quem conduzia o Renault 9 cinza na fatídica madrugada de domingo passado. “Foi uma espécie de rendição negociada”, indicou ao Correio da Manhã uma fonte da PJ.
A morte de Domingos Miguel – ’Boneco’ para os amigos – deixou a urbanização de Vila d’Este em pé de guerra. A população ficou tão revoltada que queria fazer justiça com as próprias mãos. Mas como o culpado estava a monte descarregaram a sua raiva sobre os carros das redondezas – danificaram dez, incendiaram dois.
A temperatura aqueceu tanto que a polícia chegou a temer o pior, ou seja, um confronto entre moradores. Por isso, a segurança foi reforçada. Mesmo assim, os problemas voltaram ontem de madrugada: um grupo de jovens deu uns safanões numa irmã de Lola – alegada amante de David e Domingos e personagem-chave em toda esta história (ver caixa).
Com a detenção de ontem, o clima de tensão deverá baixar. É altura de fazer o luto tanto mais que os restos mortais do trabalhador da construção civil de 24 anos serão transladados para Luanda já amanhã.
Esta história teve o seu tiro de partida sábado passado. “Como era dia de S. Valentim e a minha filha Celestina fazia anos resolvi fazer uma festa lá em casa”, recorda Zelão, amigo da vítima.
Foi uma festança abrilhantada por caldeirada e funge, regada com cerveja a estalar. Kizomba servia de banda sonora. Por volta da meia-noite, Domingos Miguel decidiu levar mulher e filha a casa. “Ele estava alterado”, reconhece Sónia Soares. Dito isto, acrescenta: “Disse-me se queria ir ao café do Joel com ele mas recusei porque a pequena estava a dormir.”
Não foi ao café mas também não ficou em casa. “Mal o meu homem desceu, vi que a Lola estava na sua beira.”
Sónia já se encontrava de pijama mas não esteve com meias medidas. Vestiu um par de calças e voou para a rua. “Nem imagina os nomes que lhe chamei.”. Foi muito a custo que Domingos conseguiu deitar água naquela fervura. Levou a mulher de regresso a casa e fez-se à noite. ”Depois, foi uma coisa de poucos minutos”, descreve Zelão. “O meu irmão João foi ver o que se passava e foi logo ‘entubado’ com tacos de basebol. Eram quatro – contando com David – mas felizmente só bateram nas pernas”, refere.
Foi então que Domingos apareceu vindo de casa. David meteu-se no carro, carregou no acelerador a fundo e esmagou o angolano. Sónia só ouviu o barulho. “Encontrei o ‘Boneco’ ainda ‘fresquinho’”, diz Zelão com uma lágrima no canto do olho.
Em Vila d’Este ninguém tem dúvidas – e o dedo é apontado a Lola. Porquê? Era amante dos dois e David não aguentou os ciúmes. Quanto à mulher da vítima ficou só e abandonada. ”Estou desgraçada. Quem é que me vai ajudar?”
COM VISTA SOBRE A SOLIDÃO
Os apartamentos têm vista sobre a solidão. As pessoas cruzam-se nos elevadores, é bom-dia, boa-tarde, são vizinhos mas não se conhecem, cada um fechado no seu mundo. As crianças, quando não estão na escola, vivem trancadas na rua. Os jovens matam o tédio nas esquinas. O desemprego mora em muitas famílias, os biscates são o pão-nosso-de-cada-dia.
A urbanização de Vila d’Este, no concelho de Vila Nova de Gaia, é assim. Um mundo triste, tão triste, que até dói. Mesmo assim alberga cerca de 20 mil almas, divididas entre o bairro privado – o mais antigo – e o bairro camarário – pintado de fresco. Os divertimentos contam-se pelos dedos de uma mão – meia dúzia de cafés, minimercados e clubes de vídeo. Só recentemente é que a autarquia começou a olhar para a urbanização com outros olhos – foi entretanto construída uma piscina, um pavilhão. Muito pouco para entreter tanta gente. Tão diferente.
LOLA É A PERSONAGEM-CHAVE DO DRAMA
Chama-se Lola e ao que tudo indica é a personagem-chave neste drama. É o vértice de um triângulo amoroso que acabou em tragédia. Em Vila d’Este grande parte da população aponta o dedo acusador na sua direcção. E explica porquê: “Ela era amante dos dois e o outro não aguentou os ciúmes.” Por isso atropelou mortalmente o angolano.
Segundo amigos da vítima, Domingos Miguel, trabalhador da construção civil, de 24 anos, o romance até é recente. “Deve ter cerca de seis meses”, asseguram. Mas a chama era enorme. “Ela fazia a cabeça dele” , acrescentam. Diz-se também que na passada sexta-feira Lola teria colocado um ponto final no seu ‘romance’ com David, o autor do atropelamento mortal. “Já não quero nada contigo. Só gosto do Domingos”. David ouviu e não gostou. E mesmo depois de se ter aconselhado com o travesseiro não conseguiu travar os seus impulsos. O final desta história é conhecido de todos.
Lola, David e Domingos moravam paredes-meias na urbanização de Vila d’Este. Frequentavam os mesmos cafés – nomeadamente o Tropicana e o Canada. Mas só ao fim-de- semana porque há algum tempo que Domingos trabalhava em Chaves.
Na urbanização ninguém sabe ao certo a profissão de Lola. “Parece que trabalha na noite”, alguém arrisca um prognóstico. Mas todos sabem que apesar de estar na casa dos quarenta era uma mulher atraente. Sedutora. “Tem cabelo pintado de vermelho, baixa estatura, vestia-se com casacos de couro e botas altas.” Resumindo: “Dava nas vistas.” Mesmo junto dos mais novos. “É uma ‘cota’ bem conservada, muito bonita”, remata um adolescente que podia ser seu filho.
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