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Correio da Manhã

Portugal
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Idosa vive no meio do lixo

O cheiro nauseabundo é insuportável. O chão está coberto por todo o tipo de lixo. No meio existe um pequeno abrigo improvisado, feito de papel, chapéus de sol e coberto com plásticos. Gatos vadios pululam no local, enquanto as moscas fazem um festim com a porcaria. Parece incrível como alguém consegue aguentar mais de um minuto naquele sítio. Mas é ali, nas traseiras de uma antiga fábrica de mármore, na cidade de Portimão, que vive há vários anos uma idosa.
26 de Novembro de 2006 às 00:00
A casa da idosa é um pequeno abrigo improvisado, rodeado de detritos
A casa da idosa é um pequeno abrigo improvisado, rodeado de detritos FOTO: José Carlos Campos
Alice Capinha, de 75 anos, apresenta um aspecto frágil. Veste roupa velha e desloca-se com a ajuda de um cajado, trazendo pela trela um cão rafeiro. “Chama-se ‘Pretinho’”, explica a idosa, ao mesmo tempo que lhe faz um mimo. “O cão é o meu companheiro há uns seis anos. Dorme junto a mim e protege-me. Eu preferia não comer só para que ele não passasse fome”, garante a septuagenária.
O ‘Pretinho’ está, aliás, na base da recusa de Alice Capinha em sair daquele sítio indigno para qualquer ser humano. A Câmara de Portimão queria que a idosa fosse para um lar, mas esta não aceitou a proposta. “Quem me tirar o cão, tira-me a vida”, diz. Os animais são, na verdade, a sua paixão: dá comida a vários cães e gatos abandonados.
A septuagenária afirma que mora na rua desde a morte do homem com quem vivia, o que, pelas suas contas, aconteceu há cer-ca de uma década. Não tem filhos e a restante família não reside em Portimão.
Recebe uma reforma que, ao que apurámos, é de 343 euros. O dinheiro permite-lhe pagar as refeições num ‘snack-bar’ próximo do mercado municipal. “Fico satisfeita com uma sopinha e pouco mais”, conta.
Alice Capinha refere que o seu sonho “era ter uma casinha, que podia ser pequenina”. Mas já se contentava “com uma rulote”. É que nos dias de temporal, com medo de que algum raio atinja a oliveira sob a qual montou o abrigo, recolhe-se, com o inseparável cão, à porta do mercado municipal. Um morador num prédio situado nas imediações adianta que “nos dias de muita chuva e vento a velhota passa a noite toda molhada. É uma tristeza”.
PROBLEMA DIFÍCIL DE RESOLVER
“A senhora rejeita ir para uma instituição e, assim, é difícil encontrar uma solução para o problema”, refere a vereadora da Câmara de Portimão, Isabel Guerreiro. O caso tem sido acompanhado por técnicos de acção social da autarquia e da Segurança Social, mas a idosa mostra pouca vontade em colaborar. Até a possibilidade de ir comer ao refeitório da Igreja da Quinta do Amparo “foi recusada”.
A autarca assegura que o lixo existente no local onde a septuagenária vive vai ser retirado. Isabel Guerreiro recorda que, há uns anos, a idosa vivia numa casa que teve de ser desinfestada, devido à grande quantidade de lixo que acumulava. “Vamos tentar todas as hipóteses possíveis para resolver a situação”, assegura a vereadora.
PERFIL
Alice Maria Capinha, de 75 anos, é viúva. Tem como familiares mais próximos três irmãos que, segundo diz, residem na zona de Albufeira. A idosa recusa ajuda familiar porque “não quer dar trabalho a ninguém”.
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