Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
3

IDOSOS SOLITÁRIOS À MERCÊ DO CALOR

Os idosos são as vítimas mais vulneráveis e menos resistentes aos efeitos do calor, não só pela idade avançada que têm como pelas doenças associadas que acabam por sofrer.
25 de Agosto de 2003 às 00:00
Em Setembro as autoridades irão estudar soluções de apoio às pessoas que vivem sós
Em Setembro as autoridades irão estudar soluções de apoio às pessoas que vivem sós FOTO: Carlos Ferreira
As autoridades de saúde pública estão preocupadas, não tanto por aqueles que vivem em instituições de acolhimento, os lares, mas principalmente por aqueles que vivem sós.
Só na cidade de Lisboa estima-se que cerca de 120 mil pessoas com mais de 65 anos, que corresponde a 20 por cento da sua população, que ascende aos 600.000 habitantes, viva só na capital, sem a companhia de parentes próximos. Recorde-se que a nível nacional, Portugal conta com 1,7 milhões de idosos, dos quais 745 mil com mais de 75 anos. Estas preocupações são reforçadas pelo facto de 763 pessoas com mais de 75 anos terem morrido, entre 30 de Julho e 12 de Agosto, não resistindo aos efeitos da canícula, conforme foi anunciado pelas autoridades de saúde e o CM noticiou oportunamente.
"Todos esses idosos que vivem sós é que nos preocupam", admite ao CM o delegado de saúde pública de Lisboa e Vale do Tejo, Carlos Silva. Segundo este responsável, não foram realizados quaisquer contactos directos com as instituições de acolhimento devido à onda de calor, mas "estas foram alertadas através da Comunicação Social sobre as recomendações a seguir".
Entre as recomendações inclui-se a necessidade de um sistema de ventilação, apesar de "não haver uma imposição legal" e "a maioria dos lares não dispõe de ar condicionado", por ser um sistema mais dispendioso que a aquisição de uma ventoinha.
NÃO BEBEM ÁGUA
"Os lares acabam por ter uma ventoinha, no tecto ou móvel, ou então têm um sistema de ventilação nos corredores ", refere Carlos Silva. A desidratação, provocada pelas altas temperaturas, é que "é o grande problema com os idosos, que como não têm a noção da sede, da secura não bebem água pois é indispensável ingeri-la para o corpo poder arrefecer, quando estamos perante temperaturas superiores a 37 graus", sublinha o clínico. Assim, os problemas decorrentes com o calor excessivo "não são os lares da terceira idade mas os idosos que vivem sós no meio citadino e rural e representam um grupo de risco em matéria de saúde pública muito importante", reconhece o delegado de saúde de Lisboa.
Tanto assim é que este assunto vai estar em discussão e análise na reunião prevista para Setembro, com todos os delegados de saúde das cinco Administrações Regionais de Saúde do Continente, bem como os técnicos do Observatório Nacional de Saúde e o Instituto dr. Ricardo Jorge.
'CHEGUEI A BEBER SEIS LITROS DE ÁGUA'
Apesar de ser alentejana e de estar habituada ao calor, Maria Gertrudes Ferreira, de 78 anos, disse ao nosso jornal que este ano sentiu mais dificuldades em superar as altas temperaturas registadas este mês por todo o País.
"Trabalhei muitos anos no campo e ao sol, mas acho que o calor é cada vez maior. Este mês estiveram aí uns dias terríveis e cheguei a beber seis litros de água por dia", contou a idosa, que vive sozinha numa casa em Portel, distrito de Évora, desde a morte do marido, ocorrida há 50 anos.
Para se proteger das altas temperaturas, esta mulher referiu que na maioria dos dias "estava entretida a fazer qualquer coisa em casa ou então dormia uma sestinha ao fresco".
"Quando era mais nova não sentia diferença. Agora, que tenho esta idade já não aguento os calores. ", acrescentou Maria Ferreira que confessou, em seguida, ter um pouco de medo das "alterações constantes da temperatura".
"Às vezes está muito calor e, de repente, os dias ficam frescos e há trovoadas. Isso não faz nada bem à nossa saúde", frisou.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)