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Correio da Manhã

Portugal
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Igreja rejeita guerras

Os bispos portugueses reagiram com relativa indiferença à intenção do PS de propor, já esta semana, na Assembleia da República, um projecto de “actualização” do protocolo de Estado, que exclui o cardeal patriarca de Lisboa, ou qualquer outro prelado, de lugar de destaque nas cerimónias oficiais.
14 de Maio de 2006 às 00:00
D. José Policarpo na posse do Presidente, tal como manda o protocolo
D. José Policarpo na posse do Presidente, tal como manda o protocolo FOTO: Pedro Catarino
Considerando que se trata, tal como aconteceu na questão dos crucifixos nas escolas, de “mais uma tentativa de imposição da vontade das minorias sobre a das maiorias”, alguns prelados admitem deixar, pura e simplesmente, de participar, “nas chamadas cerimónias oficiais”.
O projecto de lei do PS, que vai ser apresentado esta semana, assenta, segundo noticiou ontem o Expresso, na lei da liberdade religiosa e na Constituição da República, que separa claramente a Igreja do Estado.
Num primeiro comentário, ontem, o deputado Socialista Vera Jardim, o principal autor da lei da liberdade religiosa, disse que “é preciso ajustar o protocolo de Estado, que já tem muitos anos. “Mas não vamos pôr tudo de pernas para o ar”, disse, dando a entender que as alterações não serão tão profundas como se supõe à partida.
Reagindo à notícia D. Armindo Lopes Coelho, bispo do Porto, frisou ontem que “perder lugar de destaque em cerimónias oficiais facilita imenso a vida aos bispos. “Assim, deixamos de estar preocupados a marcar este ou aquele dia para os muitos eventos”.
Referindo que a aprovação do diploma não lhe causa qualquer perturbação, D. Armindo lembrou que “não há nenhuma confissão religiosa com esta dimensão, mas a ausência de elementos da hierarquia da Igreja Católica em cerimónias oficiais corresponde à lógica da lei da liberdade religiosa”.
Já o bispo emérito de Leiria-Fátima, D. Serafim Ferreira e Silva, foi um pouco mais duro nas críticas, lembrando que “o Estado não é dono de nada e deve ter em conta que coordena não apenas as minorias, mas também as maiorias”.
Considerando que “não integrar o protocolo é a libertação de um fardo”, D. Serafim lembrou que “o povo é inteligente e percebe que um Estado que se alheia da organização eclesiástica – que é a raiz da sua população – está a ofender a sua própria História”.
Os bispos portugueses não querem alimentar qualquer polémica sobre esta matéria, referindo que “não estão interessados em guerras”, supondo-se que venham a gerir esta questão tal como geriram a polémica dos crucifixos nas escolas: “Com indiferença”.
EXISTEM 60 IGREJAS
É grande a curiosidade em saber como vai resolver o PS a participação das Igrejas no protocolo de Estado: se entram todas ou se não entra nenhuma. É que a Comissão da Liberdade Religiosa reconhece cerca de 60 igrejas, o que obrigaria a seis dezenas de lugares de destaque.
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