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Correio da Manhã

Portugal
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Inaugurar o cemitério novo? Nem mortos!

A população de Caires, no concelho de Amares, não parece nada entusiasmada com a mais recente obra da sua Junta de Freguesia: um cemitério novinho em folha, a escassas dezenas de metros do velho e superlotado Campo Santo.
28 de Dezembro de 2004 às 00:00
Todos concordam com a necessidade de aumentar o espaço para sepultar os mortos, dado o acelerado crescimento da freguesia, mas a esmagadora maioria afirma que, “quando a hora chegar”, quer ficar no cemitério onde jazem os seus familiares e amigos.
Nesta altura, na freguesia, onde moram cerca de mil pessoas, há dois cemitérios a 20 metros da igreja: um à direita e outro à esquerda. O antigo, à esquerda, com cerca de uma centena de campas, está a rebentar pelas costuras; o novo, com capacidade para 250 sepulturas, está pronto, à espera de ser benzido e do seu primeiro ‘inquilino’.
“Deviam ter optado por alargar o mais possível o antigo cemitério, evitando assim contestações”, afirma ao CM um habitante da freguesia, garantindo que “há pessoas que vão deixar em testamento a exigência de serem sepultadas no velho cemitério”.
O presidente da Junta, José João Carvalho, explica ao CM que “é tecnicamente impossível” alargar o cemitério antigo e que “a Junta preocupa-se com os problemas da população e não com questões particulares de um ou dois descontentes”. O autarca não está preocupado com a ‘inauguração’ do novo cemitério, já que “ele há-de ser benzido na altura certa e, para isso, não é preciso haver funeral”.
PROBLEMA IGUAL NA FICÇÃO
“Deixemos os entretantos e vamos aos finalmentes”, dizia Odorico Paraguaçú, o prefeito de Sucupira que nunca mais conseguia inaugurar a sua grande obra, o cemitério, na novela ‘O Bem Amado’, emitida na RTP 1 em 1984. O prefeito, interpretado por Paulo Gracindo, andava sempre à procura de quem estreasse o cemitério. No fim, acaba por morrer e inaugura-o da forma que menos esperava.
ÁGUAS TURVAS
SAÚDE PÚBLICA
O partido ecologista Os Verdes diz que o novo cemitério de Caires pode vir a tornar-se um caso de saúde pública, já que, assegura Celso Ferreira, “está em cima de duas nascentes de água, uma das quais alimenta poços e fontanários da freguesia”. Considera também que o Instituto Geológico Mineiro devia ter uma palavra a dizer sobre o assunto.
REFERENDO
Mário Dias, um dos poucos habitantes que dá a cara na contestação ao novo cemitério, diz que a decisão de construir o equipamento devia ter sido tomada após a realização de um referendo aos moradores da freguesia, “para que o povo todo não tenha de estar sujeito à vontade de alguns”. ‘Os Verdes’ acrescentam que, “em casos destes, a consulta popular devia ser obrigatória”.
DESENVOLVIMENTO
Alguns dos contestatários ao novo cemitério consideram que o equipamento mortuário vai funcionar como um travão ao desenvolvimento da terra. É que, afirmam, os terrenos adjacentes desvalorizaram a toda a força, caindo alguns para menos de metade do que valiam.
PROCISSÕES
A questão da inauguração do novo cemitério passou a ser um dos principais temas de conversa na freguesia. Uma das questões que começa a colocar-se é como resolverá o pároco o problema da tradicional procissão ao cemitério, no dia dos Fiéis Defuntos. Fará duas? Uma dúvida que permanece para já sem resposta.
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