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Correio da Manhã

Portugal

Inquilina desespera

Em pleno centro de Lisboa, Cacilda Valongo, 53 anos, vive há mais de um mês numa casa sem electricidade nem gás, depois de na tarde do dia 28 de Janeiro ter visto a casa onde mora arder, na Travessa Conde de Soure.
10 de Março de 2005 às 00:00
Mesmo com a ajuda dos bombeiros, a inquilina do imóvel perdeu todos os electrodomésticos e agora desespera, já que nem o senhorio nem a Lisboa Gás pagam os estragos e lhe devolvem a “dignidade de viver”.
Cacilda não estava em casa, mas a filha deu-lhe o alerta de que o fogo lhes estava a lavrar o apartamento. Os bombeiros não tardaram a extinguir as chamas, mas a família perdeu todos os electrodomésticos da cozinha e viu parte da casa comida pelo fogo. Foi o pesadelo. “Os bombeiros disseram-me que o gás estava desligado, mas que houve uma fuga na conduta na escada”, conta.
Cacilda ficou sozinha a viver no andar, arrendado há 20 anos, agora sem electricidade nem gás, enquanto a filha e o genro foram morar para casa dos pais dele. “Como não posso usar um aquecedor, encho um saco de água quente e deito-me”, lamenta a mulher desempregada há um ano. A electricidade está cortada mas o perigo é visível: Os fios queimados estendem-se pelas paredes.
Há mais de um mês que Cacilda se deita quando a luz do dia desaparece e, a meio da noite, só uma lanterna a salva da escuridão. A higiene diária faz-se com água aquecida no mesmo fogão de campismo – comprado, após o incêndio –, que é usado para cozinhar. As paredes da casa continuam com as marcas do fogo que se apoderou das madeiras. E, nem o senhorio nem a Lisboa Gás, recuperaram os seus bens. No entanto, Cacilda nunca deixou de pagar os 154 euros de renda.
O proprietário do apartamento, Luís Rebelo, disse ao CM que estava “solidário” com a arrendatária, no entanto, aguardava que a empresa responsável pelo abastecimento de gás, Lisboa Gás, se responsabilizasse pelo sucedido. Pediu o relatório do incêndio aos Bombeiros Sapadores de Lisboa, que detectaram um buraco de dois centímetros na canalização do prédio. Mais tarde, um relatório de peritagem ditava a mesma causa para a destruição dos bens da inquilina e da casa que arrendou.
A Galp Energia, disse ao CM [em nome da Lisboa Gás] que uma equipa de peritagem se deslocou a casa de Cacilda e “apurou que as causas do incêndio se devem a um curto-circuito no fogão”. A empresa sustenta que as obras não são da sua responsabilidade e acrescenta que a fuga na canalização nada tem a ver com as causas do incêndio. “Tudo o que acontece da porta do prédio para dentro é da responsabilidade dos proprietários”, concluem. Apenas admitem como única falha não terem comunicado o resultado da peritagem por escrito.
Luís Rebelo admitiu, porém, proceder às obras enquanto apura a quem serão imputados os custos.
RELATÓRIO REVELA PERIGO DE EXPLOSÃO
O relatório do Regimento de Sapadores Bombeiros entregue a Luís Rebelo [proprietário da casa arrendada a Cacilda Valongo] refere que se “tratou de fogo na cozinha da habitação, provocado por uma rotura da canalização de gás natural (canalização antiga, em chumbo), antes da torneira do contador”. Após a extinção das chamas “descobriu-se que o gás continuava em saída livre (o cano tinha uma abertura circular, com cerca de dois centímetros de diâmetro), pois era completamente inodoro, o que colocou em risco todo o pessoal que ali trabalhava”. Também a empresa de peritagem, GSmax, contratada por Luís Rebelo afirma “peremptoriamente que o sinistro se verificou devido a fuga de gás e que essa fuga se verifica antes da área pertencente em responsabilidade ao proprietário do imóvel”.
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