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Correio da Manhã

Portugal
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Inspectores da PJ contestam director

A Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal da PJ (ASFIC) está contra o encerramento das direcções centrais do combate à droga, banditismo e crime económico, ideia defendida por Alípio Ribeiro, director nacional da Polícia Judiciária, ontem, em entrevista à estação de rádio TSF.
5 de Novembro de 2006 às 00:00
Carlos Anjos, presidente da ASFIC, disse ontem ao CM que a reestruturação da PJ não deve passar pelo desaparecimento da Direcção Central do Combate ao Banditismo (DCCB), Direcção Central de Investigação ao Tráfico de Estupefacientes (DCITE) e a Direcção Central de Investigação e Combate à Criminalidade Económico-Financeira (DCCIEF).
“Não se pode dizer que vamos acabar com as direcções centrais quando são elas que têm toda a informação. São as unidades centrais, também, que se relacionam com outros países”, afirmou o presidente da ASFIC.
Segundo Carlos Anjos, “não há nenhum plano” de reestruturação da PJ em que esteja previsto o fim da DCCB, DCITE e DCCIEF: “Acabar com as direcções centrais deve ser feito em sede de lei orgânica. E o director da PJ não tem poder para acabar com elas.”
Como as actuais direcções centrais da PJ já têm mais de dez anos, Carlos Anjos admite que sejam reformuladas: “Têm de adaptar-se ao crime actual. E uma das coisas que se pode fazer é a descentralização dos crimes que são investigados pelas direcções centrais. Como o tráfico de droga nacional.”
Em entrevista à TSF, Alípio Ribeiro defendeu ontem que as actuais direcções centrais do combate ao tráfico de droga, banditismo e crime económico devem ser substituídas por duas estruturas de âmbito nacional, nas áreas do terrorismo e corrupção.
O director da PJ frisou que num mundo global a investigação deve ser global e que, no caso da droga, a distância que vai do tráfico de estupefacientes à corrupção e ao terrorismo é inexistente.
Alípio Ribeiro lembrou também que a actual organização da Judiciária fazia sentido “há 20 ou 30 anos”, porque a criminalidade estava muito repartida.
COMBATE AO BANDITISMO É DE 1979
ww A Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB) ‘nasceu’ em 1979, numa altura em que dispararam os assaltos a bancos à mão armada e o terrorismo interno, com as Brigadas Revolucionárias do PRP e a rede bombista de extrema-direita que actuava essencialmente no Norte do País. Foi a primeira direcção central da PJ. Quando Marques Vidal assumiu a direcção da Judiciária, em 1985, foram criadas a Direcção Central de Investigação ao Tráfico de Estupefacientes (DCITE) e a Direcção Central de Investigação à Criminalidade Económico e Financeira (DCCIEF). “Enquanto estive na PJ, entre 1985 e 91, já existia a DCCB, por causa do terrorismo, e já havia o embrião da DCITE, que, no entanto, acabou por ser implementada no meu tempo, tendo em conta os inúmeros problemas que havia com a droga. Mais tarde criei a DCCIEF, devido à necessidade de combater a corrupção. Na altura, essas direcções centrais eram adequadas aos tempos que corriam”, disse Marques Vidal ao CM.
REACÇÕES
"HOJE EM DIA OS CRIMES CRUZAM-SE" (MARQUES VIDAL, EX-DIRECTOR DA PJ)
“Admito que a PJ seja reestruturada, dado que hoje em dia terrorismo, tráfico de droga e corrupção, principalmente branqueamento de capitais, cruzam-se entre si. O terrorismo utiliza muitas vezes o branqueamento de capitais e a corrupção e alimenta-se de tráfico de droga.”
"EM TESE É UMA BOA IDEIA (MOITA FLORES, EX-INSPECTOR DA PJ)
“Em tese, a ideia é boa, porque, hoje em dia, o combate ao grande tráfico de estupefacientes é feito no terreno do branqueamento de capitais. Por outro lado, o grande tráfico é sustentado por poderosas associações criminosas associadas ao banditismo. Portanto, o combate ao tráfico é transversal, quer ao banditismo, quer às infracções económico-financeiras.”
"SÓ FICA A EXTINÇÃO DE UMA ESTRUTURA" (FERNANDO NEGRÃO, EX-DIRECTOR DA PJ)
“O dr. Alípio Ribeiro fala numa profunda reestruturação, mas, no fundo, a única coisa que fica é que ela se vai limitar à extinção da estrutura de combate à droga para concentrar o combate ao tráfico interno. Para fazer isto não é necessária qualquer reestruturação. Basta existirem orientações precisas no sentido de reorientar a investigação.”
"É UM ERRO TÉCNICO FECHAR A DCITE" (ANTÓNIO MARTINS, EX-DIRECTOR DA PJ)
“Enquanto ex-director nacional adjunto da PJ considero um erro técnico fechar a DCITE (Direcção Central de Investigação ao Tráfico de Estupecientes), onde estive entre 95 e 99. Será um profundo erro disseminar por vários departamentos o combate ao grande tráfico de droga. Em relação ao exterior, por exemplo, deixava Portugal com uma imagem extremamente negativa.”
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