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Correio da Manhã

Portugal
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INVENTO PRENDE CRUDE

Um antigo técnico português de combate a incêndios em navios, residente nas Caldas da Rainha, inventou um engenho que permite o controlo de derrames de crude e evita as catástrofes ambientais causadas pelas marés negras. Só que ainda não conseguiu sensibilizar qualquer organismo público para a utilidade do seu invento.
24 de Agosto de 2004 às 00:00
José Manuel Amaral, de 65 anos, ensaiou e experimentou o engenho durante “vários anos” num tanque simulador onde colocou óleo queimado e esferovite líquido, guardando na memória as imagens do naufrágio do navio ‘Prestige’, que em Novembro de 2002 lançou 77 mil toneladas de fuelóleo na costa da Galiza.
O inventor lamenta que “apesar de ter sido remetida toda a documentação ao Presidente da República, primeiro-ministro, ministro da Defesa e outros membros do Governo, o silêncio tem sido quase total e a pouca resposta acaba por não dizer nada, apenas agradecem o envio da informação. Até ao momento a correspondência não chega a conclusão nenhuma”. Foi ainda recebido por todos os grupos parlamentares.
Por isso, chegou a pensar registar a patente no estrangeiro, talvez na Monróvia, capital da Libéria, onde “é muito mais barato e não há tanta burocracia”. “É provavelmente mais um invento útil que vai fugir para outros países e depois quando for preciso manda-se vir e paga-se, pois somos um País sem dificuldades financeiras”, ironiza.
A ideia de José Amaral consiste em circundar à superfície, a cinco metros de distância, os navios que estejam a derramar crude com um cordão formado por blocos de politileno. Esta medida visa evitar que a mancha se espalhe.
O inventor explicou que “o crude nunca mergulha e fica sempre à superfície, mas temos de contar com o tempo, porque uma forte ondulação pode fazê-lo galgar as barreiras”. A acção é, por isso, seguida por uma segunda protecção exterior, a uma distância de quatro metros, através de outra barreira também feita com politileno, que evitará fugas.
O antigo técnico de incêndios navais ao longo de 45 anos, explica que para o sistema funcionar é necessário que o comandante do navio acidentado informe sobre a tonelagem do barco e o local da ruptura quando der o alerta às autoridades.
Assim, será enviado o número de blocos consoante a dimensão do navio. É ainda necessário saber o combustível que transporta e a localização dos tanques.
Segundo apontou, o invento “teria custos insignificantes e resolveria o problema de derrames de crude com êxitos na ordem dos 100 por cento”, numa actuação de contenção da maré negra até ao estudo das medidas de fundo para resolver cada caso.
MANCHA ENTRE BARREIRAS
O projecto, orçado em 300 mil euros, consiste em circundar navios que estejam a derramar crude com um cordão com blocos de politileno a cinco metros de distância do costado do navio, que fará a primeira barreira e evita que a mancha se espalhe.
Uma segunda protecção exterior é feita em politileno, a uma distância de quatro metros da primeira barreira, para que não haja fuga.
Para o sistema funcionar é necessário que o comandante do navio acidentado informe correctamente a tonelagem do barco e o local da ruptura quando der o alerta às autoridades de salvamento.
'OS DILUENTES SÃO INEFICAZES'
De acordo com o técnico, outras soluções que têm surgido, como por exemplo a utilização de um produto diluente, não são tão eficazes, porque “é caro e causa danos grandes na fauna marinha”.
Daí que a solução mais habitual seja “deixar vir para a costa e depois apanhar o crude”, com as consequências nefastas para o ambiente.
Quando o óleo atinge a água do mar espalha-se pela superfície e forma uma camada compacta que leva anos a ser absorvida. Isso impede a oxigenação da água, pondo em risco a vida da fauna e flora marinhas. A substância química reage com a água, uma crosta de crude pode formar-se no oceano e dar à costa. O óleo denso expande-se lentamente e pode cobrir uma vasta área no mar.
“Um derrame perto da costa portuguesa teria efeitos catastróficos e esta não é só constituída por praias, mais fáceis de controlar porque têm areia, mas também por zonas de rochas, que levam anos a recuperar”, manifesta José Amaral, sublinhando que a sua ideia é combater o crude logo na zona do derrame, evitando o alastramento.
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