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Correio da Manhã

Portugal
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Irmãos apanham 24 anos

Thierry Beille e Corinne Caspar já não estavam na sala de audiências do Tribunal de Lagos quando a juíza Alda Casimiro proferiu, ontem à tarde, a sentença que os condenou à pena de 24 anos de prisão pelo homicídio qualificado do velejador André Le Floch, a bordo do trimarã ‘Intermezzo’, em Agosto do ano passado.
15 de Dezembro de 2007 às 00:00
Os dois arguidos tinham sido retirados da sala, por ordem do colectivo, depois de ambos terem protestado, quase aos gritos, a sua inocência. “Vamos ser condenados sem provas, sem defesa e sem poder falar das circunstâncias da morte de André Le Floch. É inadmissível”, começou por dizer Thierry Beille.
“Vamos continuar a manifestar- -nos até sermos expulsos”, prosseguiram os dois meio-irmãos, segundo os quais a vítima “não morreu estrangulada mas sim de frio, no barco. Bastaria uma simples radiografia ao corpo para o provar”. De costas para os juízes e falando directamente com o público e jornalistas, Thierry acusou o Tribunal de “não ter feito os exames” que ele e a irmã solicitaram. Quando estava a ser retirado da sala, às 15h38 (oito minutos depois de entrar), ainda se voltou para trás e gritou que “as três audiências de julgamento foram uma farsa”.
Deixada sozinha no banco dos réus, Corinne voltou a gritar que tanto ela como o meio-irmão estão “inocentes”, após o que também foi levada para fora da sala.
Apesar do insólito da situação, a presidente do colectivo procedeu, impávida, à leitura do acórdão. O Tribunal deu como provados os factos constantes da Acusação, tendo a magistrada sublinhado “não haver qualquer dúvida” de que os arguidos “mataram outra pessoa tendo em vista o roubo do trimarã”. Pelo homicídio, Thierry e Corinne foram condenados, cada um, a 19 anos e seis meses de prisão e, por roubo agravado, a nove anos. Já a profanação de cadáver, tentada, valeu-lhes mais dez meses. A pena, de 24 anos, foi obtida por cúmulo jurídico.
Manuel dos Santos, advogado dos arguidos, vai recorrer da sentença. Curiosamente, Thierry e Corinne sorriam quando entraram nos carros celulares de volta à cadeia.
AUTÓPSIA FOI DETERMINANTE
O relatório de autópsia ao corpo de Le Floch – “minucioso e exaustivo” – foi determinante para a condenação por homicídio, em co-autoria, dos dois franceses. “A causa da morte – entre 15 e 17 de Agosto – foi devida a asfixia mecânica por constrição do pescoço por mãos e laço, levada a cabo por um ou pelos dois arguidos mas sempre por acordo conjunto”, referiu a presidente do colectivo, adiantando que o velejador foi “amarrado já depois de morto” e “com lastro”, para que se mantivesse no fundo do mar, para onde o tencionavam atirar a fim de se desfazerem do cadáver, “o que só não fizeram porque o barco naufragou”. Para o colectivo, “o crime reveste-se de especial censurabilidade, tendo-se a arguida insinuado junto da vítima e ganho a sua confiança” para matá-la e roubar o barco, tendo os dois franceses actuado “com frieza de ânimo”. O Tribunal não deu como provado que Le Floch tivesse tentado violar Corinne, como esta alegou.
'DANÇA' DE ADVOGADOS
Thierry Beille e Corinne Caspar começaram por ser defendidos, de forma oficiosa, pelo advogado Francisco Pagarete (mandatário de Robert Murat, arguido no caso Madeleine), o qual viria a pedir escusa por dificuldade de relacionamento com os arguidos.
Manuel dos Santos ficou então com a defesa de Thierry, enquanto Corinne passou a ser representada por António Vilar, que foi contactado nesse sentido pelo mediático advogado francês Gilbert Collard. O jurista portuense acabou por assegurar a defesa dos dois meio-irmãos mas abandonou-a após a primeira sessão de julgamento, durante a qual Thierry e Corinne – fazendo jus à atitude belicosa que sempre manifestaram – mostraram não ter confiança no advogado. Manuel dos Santos acabou assim por voltar a assegurar a defesa oficiosa, desta vez dos dois franceses e não apenas de Thierry.
PORMENORES
TRIMARÃ
O Tribunal ordenou a devolução aos herdeiros de Le Floch do trimarã ‘Intermezzo’, actualmente depositado em seco e a degradar-se no Ponto de Apoio Naval de Portimão.
INDEMNIZAÇÃO
Os arguidos foram condenados ao pagamento da indemnização cível de 80 mil euros aos três filhos da vítima e ainda 20 mil euros à companheira. Para os advogados da família foi “uma decisão justa”.
MANUSCRITO
Mal entrou na sala do Tribunal, Thierry perguntou se havia ali algum jornalista francês. Entregou depois a um repórter da France Presse um manuscrito que acabou por ser levado pelos guardas prisionais.
ATITUDE
A postura insólita dos arguidos em Tribunal seria passível de procedimento criminal - por perturbação de funcionamento de órgão - mas o colectivo limitou- -se a ordenar a saída da sala de Thierry e Corinne.
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