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Correio da Manhã

Portugal
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Irmãs menores lançadas na prostituição

A Marta tem um segredo. Guarda religiosamente as moedas que alguns vizinhos do bairro lhe vão dando de tempos a tempos. As moedas estão numa lata escondida dos olhares indiscretos e vão servir para comprar uma trotineta. A sua pequena fortuna, porém, tem um preço que ela gostaria de não ter pago.
25 de Julho de 2005 às 00:00
Irmãs menores lançadas na prostituição
Irmãs menores lançadas na prostituição FOTO: Tiago Sousa Dias
Um preço que lhe sai do corpo franzino de quem tem apenas dez anos. A Marta preferia que os vizinhos não a levassem, não lhe tocassem e não a violassem. Nem a ela nem às irmãs, sobretudo a mais pequena de sete anos.
A Marta não vai de mote próprio para junto dos homens que lhe querem mal. Alguém a leva e a incentiva. De regresso a casa traz as suas moedinhas – e a menina garantiu aos inspectores da Polícia Judiciária que a mãe também ganha com isso.
O drama destas crianças foi descoberto, em Janeiro deste ano, por responsáveis da escola e do centro de actividades de tempos livres que frequentavam. Tragédia que tinha escapado aos elementos do programa de apoio a famílias com crianças em risco. A PJ prendeu um dos abusadores em Março. Mas só agora, no início deste mês, a Comissão de Protecção de Menores pegou nas três e as levou para lugar seguro. As raparigas de sete, dez e onze anos deixaram a casa dos pais para trás. O rapaz de 12 anos e a mais velha de 15 ficaram.
A Marta cresceu no bairro de Chelas, em Lisboa, numa daquelas famílias que habitualmente se classificam como mal estruturadas quando não é de bom tom falar em miséria. Famílias onde o emprego não abunda, o dinheiro não entra, a comida é pouca e há filhos, muitos filhos, para criar. E quando o dinheiro não entra de forma lícita há que desencantá-lo por outras vias. Pôr os filhos a render não costuma ser uma opção.
Mas foi essa a história que a Marta contou aos inspectores da Polícia Judiciária quando os abusos começaram a reflectir-se no comportamento. Não comia, não sorria, não brincava. As lágrimas molhavam-lhe o rosto de manhã à noite. Alguém da escola que frequenta em Marvila reparou. E denunciou.
O primeiro desabafo foi em Janeiro deste ano. Cautelosa, a medo, lá contou o que lhe entrou vida adentro: “Não consigo dormir. Tenho medo dos velhos.” A ouvinte, atenta, questionou-a: “Dos velhos? Porquê?” E a pequena lá foi contando o seu mundo e a cruz pesada que transporta.
Apontou o dedo a um vizinho do prédio, disse que a mãe a levava quando o pai estava a dormir e que no regresso a mãe recebia notas de cinco, dez e 20 euros. A irmã mais nova também ia.
Quando a PJ entrou em campo, já tinham passado três meses desde o primeiro relato da criança. O vizinho, de 71 anos, foi detido e ficou em prisão preventiva. Sobre ele pendem fortes indícios de abusos reiterados da Marta e das irmãs de sete e de 15 anos.
Os exames que Marta fez no Instituto de Medicina Legal deixaram bem claro as violações. Ainda tinha sémen na vagina. Ninguém retirou as irmãs de casa e a denúncia valeu à criança uma valente sova da mãe.
Com a prisão do alegado abusador, Marta transformou-se. Voltou a comer e a dormir em paz. O sorriso voltou a iluminar-lhe o rosto. Infelizmente, durante muito pouco tempo. Passou, talvez, um mês e a Marta regrediu.
Quando falou, parecia mentira. Não era um violador, mas vários; não era no prédio, mas numa casa na Zona J de Chelas onde “os velhos não usavam borrachinha e lhe batiam na cara e no rabinho”. E “desta vez se falasse batiam-lhe a mãe e o pai”. Um mês depois, as três meninas foram retiradas daquela casa dos horrores, em Chelas.
PORMENORES
FAMÍLIA EM CHELAS
A família da menina vive no bairro de Chelas. Em casa, falta dinheiro e comida e falta também emprego para os garantir. Os pais de Marta, que tem três irmãs e um irmão, estão desempregados. O retrato de uma família mal estruturada.
PRIMEIROS SINAIS
Foi em Janeiro, na escola e no centro de actividades de tempos livres, que o drama de Marta começou a revelar-se. A menina não dormia, não sorria, não brincava. “Tenho medo dos velhos”, contou. Foram as primeiras palavras de uma história de horror, que tinha escapado aos responsáveis do programa de apoio a famílias com crianças em risco.
PJ PRENDE ABUSADOR
Nos dois meses seguintes à denúncia, a Polícia Judiciária investigou o caso, recolhendo testemunhos e juntando ao processo o resultado dos exames feitos à criança no Instituto de Medicina Legal, durante os quais foi encontrado sémen na vagina de Marta. Em Março, um homem de 71 anos, vizinho da menina, foi detido e está desde então em prisão preventiva a aguardar julgamento.
AINDA EM CASA
Nem a detenção do alegado abusador nem as conclusões dos exames periciais levaram a Comissão de Protecção de Menores a actuar. Marta regressou a casa, as suas duas irmãs mais novas não tinham chegado a sair. A menina foi sovada pela mãe, mas mesmo assim voltou a sorrir, a comer e a dormir.
PJ INTERROGA MÃE
Sabe-se agora que tudo terá voltado ao normal. Talvez tenha piorado. A menina conta que já não era o vizinho. Os abusos ocorriam numa casa da zona J de Chelas. Os abusadores, contou a criança, não usavam preservativo e batiam-lhe. Marta conta que a mãe, que entretanto foi ouvida pela Judiciária, recebia notas de cinco, dez e 20 euros.
RETIRADAS DE CASA
Seis meses depois das primeiras palavras sobre o abuso, Marta e as irmãs mais novas foram retiradas de casa pela Protecção de Menores. Seguiram as três para local seguro. Em casa ficou o irmão das meninas, um rapaz de 12 anos, e a irmã mais velha, de 15 anos.
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