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Correio da Manhã

Portugal
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Isto é o País do faz-de-conta

"Nem tenho palavras. Acho que isto é uma brincadeira autêntica. Matou três raparigas e anda a passear sem algemas e a comprar revistas?”, questiona Luís Gomes, o tio de Mariana Lourenço – a segunda jovem assassinada pelo ex-cabo da GNR, António Costa.
18 de Novembro de 2007 às 00:00
O cabo Costa nem terá sido transportado num carro celular, mas num carro-patrulha da GNR
O cabo Costa nem terá sido transportado num carro celular, mas num carro-patrulha da GNR FOTO: Raul Cardoso
O sentimento de revolta desta família não podia ser maior. “Isto é o País do faz-de-conta. A família ligou-me ontem [sexta-feira] a perguntar o que se estava a passar e estão muito revoltados com esta situação. Ele está a ter um tratamento de luxo”, afirma João Pereira, o advogado da família Lourenço.
Na passada quinta-feira, o ex-cabo António Costa – condenado a 25 anos de cadeia pelo homicídio de três jovens e ocultação dos seus cadáveres – deslocou-se ao Centro Clínico da GNR, em Lisboa, para uma consulta de rotina. O serial killer de Santa Comba foi visto pelo médico e, logo a seguir, transportado pelos militares num carro-patrulha.
A missão era devolvê-lo ao estabelecimento prisional e militar de Tomar. Mas antes, os elementos da GNR que acompanhavam o ex-cabo Costa tiveram de fazer um desvio para ir buscar fardamento a um quartel no Largo da Graça. E foi aí que alguns populares viram António Costa, sem algemas, a comprar a revista ‘Sábado’ – que tinha um artigo a explicar como a PJ conseguiu a confissão do cabo – numa banca de jornais.
O Comando-Geral da GNR apressou-se a investigar o sucedido. “Esta situação não é, de facto, normal. A GNR já abriu um processo de averiguações para verificar o que se passou. De qualquer forma, o cabo Costa estava sem algemas mas andou sempre acompanhado pelos militares”, disse ao CM o coronel Costa Cabral, responsável pelas relações públicas da GNR.
O curto passeio em liberdade causou estranheza aos populares que ali passaram àquela hora e à proprietária do quiosque. “Mas este tipo é o que matou aquelas raparigas. Eu pensava que ele estava preso”, comentaram. Segundo Costa Cabral, “o processo de averiguações pode passar a disciplinar se houver dados” que o justifiquem. E os militares que fizeram o transporte do ex-cabo “vão ser responsabilizados”.
Entretanto, os familiares de Joana, Isabel e Mariana vão telefonando uns aos outros para partilhar a dor e a revolta que sentem. “Esperamos que alguém seja punido por ele andar aí a passear. Ainda bem que eu não estava lá para ver isso. Não sei o que teria feito”, diz Luís Gomes.
CONDENADO A PENA MÁXIMA
António Costa foi julgado por nove crimes e condenado a 25 anos de cadeia no dia 25 de Junho pelos homicídios de Santa Comba Dão. O Ministério Público pediu entretanto a elevação do prazo da prisão preventiva (está detido desde 23 de Junho de 2006) para três anos e quatro meses, para impedir uma libertação, uma vez que está pendente um recurso da defesa do cabo.
AS VÍTIMAS
ISABEL ISIDORO
Desapareceu no dia 24 de Maio de 2005. O cadáver da jovem foi encontrado dias depois no rio, na Figueira da Foz.
MARIANA LOURENÇO
Esteve desaperecida oito meses. Parte do seu corpo foi encontrado na barragem do Couço, em Penacova.
JOANA OLIVEIRA
Em Junho de 2006, a PJ encontra o cadáver na barragem de Raiva, em Penacova, um mês depois de ter desaparecido.
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