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Correio da Manhã

Portugal
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JÁ NÃO PENSO NA MORTE

Ivone tem 76 anos. Há seis anos que vive com sida. Tudo começou com uma consulta de rotina no Hospital de São José. Com as radiografias,as análises do costume. Ela estranhou porque nunca mais a médica lhe comunicava os resultados. "Começou com rodeios, evitava falar sobre o assunto". Ivone desconfiou.
11 de Outubro de 2003 às 00:00
Aos 63 anos, já depois de enviuvar, Ivone viveu romance envenenado
Aos 63 anos, já depois de enviuvar, Ivone viveu romance envenenado FOTO: Jordi Burch
Por isso insistiu para que lhe dissesem toda a verdade. Depois de muitas evasivas a médica encheu-se de coragem comunicou o veredicto. "Eu não merecia que ele me pegasse uma coisa destas" desabafou amargurada mal soube o mal que lhe devorava as entranhas.
Era a última coisa que esperava da vida. "Eu pensava que era uma doença de jovens, toxicodependentes e homossexuais". Estava enganada. A sida não escolhe o sexo, a idade. Não tem preconceitos. Muito menos qualquer sentido de justiça. "Senti-me a pessoa mais infeliz deste mundo". De nada lhe valeu. Tanto mais que naufragou numa profunda vergonha. "O que é que vou dizer aos meus filhos?", interrogou-se. Durante mais de cinco anos guardou segredo. O seu silêncio pesava que nem chumbo porque não podia partilhá-lo com ninguém. " Só há ano e meio é que disse ao meu filho". Quanto à filha continua na mais completa ignorância. "Ela nunca iria compreender".
Ivone foi contaminada pelo vírus da sida no entardecer da vida. Tinha acabado de enviuvar, já estava na reforma, os filhos já crescidos, quando se deixou cegar pela luz do amor. "Pensei que aquilo era amor à primeira vista". Ele tinha menos onze anos e vivia na Alemanha. "Depois da morte do meu marido passei a ir de quinze em quinze dias para o pé da minha mãe no Alentejo. Foi lá que o conheci". Foi lá que se deixou seduzir. "Nós falávamos de música, bailado, ópera". De coisas que ela gostava.
Por isso numa altura em que a maioria das pessoas escutam a voz da razão ela deixou-se levar pelo bater do coração e partiu para a Alemanha.
ROMANCE ENVENENADO
Saiu-lhe cara a aventura. Sete anos depois regressou com uma terrível herança na bagagem. "Aquele homem deixou-me duas heranças. Uma carteira bordada à mão e isto". Mal soube que estava contaminada pelo virus da sida Ivone desejou a morte. "Entrei numa penumbra muito grande. Cheguei a pensar no suicídio". Foi a fé que a salvou. Mas também o facto de sempre ter seguido à letra as instruções do seu médico. "Eu nunca falhei um tratamento". A pouco e pouco voltou a sentir o apelo da vida. Tanto mais que encontrou no filho a bengala emocional que tanto precisava. "Um dia voltei-me para ele e disse: preciso contar-te uma coisa". Estivemos uma tarde inteira a falar. Contei-lhe o meu sofrimento, ele chorou tanto mas no fim só me disse: 'não podes continuar a viver assim' ." A filha continua afastada desta cumplicidade.
Desde esse dia que decidiu voltar a agarrar a vida com a duas mãos. De quando em vez ainda se deixar vergar pela apreensão. Não por muito tempo. "Quando me sinto deprimida canto. Ou então vou ao espelho, dou uma penteadela, e vou dar uma volta ao quarteirão". E volta a ver o futuro com outros olhos. Com olhos de esperança.
SIDA SEM IDADE
O mais recente relatório do Fundo das Nações Unidas para a População leva muitos analistas a concluírem que a sida é "uma doença de jovens". Isto porque a população entre os 15 e os 24 anos constitui metade dos cerca de cinco milhões de novos casos de infecção em todo o mundo. No entanto, o novo comissário nacional da luta contra a sida chama a atenção para um novo grupo de risco: pessoas com mais de 50 anos. Dados do Centro de Vigilância Epidemiológica das Doenças Transmissíveis referem que dos 10 473 casos diagnosticados,1211 afectam o grupo etário a partir dos cinquenta.
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