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Correio da Manhã

Portugal
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Jovens não se protegem

Uma em cada seis adolescentes portuguesas tem uma vida sexualmente activa sem que isso, no entanto, implique o uso de qualquer tipo de contracepção. Números “surpreendentes”, de acordo com Daniel Pereira da Silva, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG), e que resultam de um estudo epidemiológico sobre as práticas contraceptivas da mulher portuguesa.
3 de Março de 2005 às 00:00
“Não estavamos à espera destes resultados”, afirma o especialista. “Temos a experiência das consultas, em que percebemos que as mulheres mais jovens continuam a recorrer aos métodos naturais e pensam que assim estão protegidas, mas não pensávamos que chegasse aos 16 por cento”, explica o médico.
Realizado em conjunto pela SPG e pela Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, o estudo incidiu sobre cerca de 3800 mulheres, com idades entre os 15 e os 49 anos e revela ainda que 11,2 por cento já recorreram à pílula do dia seguinte, número que aumenta quando se trata das mais jovens. “Nas adolescentes, 32,9 por cento confessou já ter usado a contracepção de emergência, o que dá conta de um aumento da frequência preocupante”, refere o clínico.
A pílula, segundo o estudo, continua a ser o método contraceptivo mais usado pelas mulheres – 88,3 por cento. No entanto, esse uso nem sempre é feito da melhor forma. “Entre 24,1 e 75 por cento das inquiridas referiu não ter seguido as indicações correctas”, afirma Daniel Pereira da Silva. “A isto junta-se ainda o facto de a grande maioria se esquecer de tomar a pílula pelo menos três vezes por ano”, acrescenta o médico.
E é entre as mais jovens que o esquecimento é maior. Dizem os números que nove em cada dez utilizadoras adolescentes já se esqueceu de ingerir o comprimido diário, o que pode explicar por que é que 18,9 por cento já desconfiou de uma potencial gravidez não desejada.
POUCO CONHECIMENTO
Apesar da informação disponível ser, segundo o presidente da SPG, “cada vez maior”, o estudo dá conta de limitações ao nível do grau de conhecimento das mulheres em relação à contracepção em geral. “É verdade que, sobretudo entre os jovens, há muito mais conhecimento. Não há dúvidas que a informação está lá, mas penso que todos nós temos que repensar a forma como ela é transmitida, uma vez que parece não corresponder à prática das pessoas.”
NÚMEROS REVELADORES
ENSINO
Cerca de 83 por cento das participantes no estudo com idade entre os 15 e os 19 anos abordou o tema da contracepção na escola. Um valor elevado, quando comparado com os 17,9 por cento das mulheres entre
os 40 e 49 anos.
IDADES
A maioria das entrevistadas – 77 por cento – que fazem contracepção tem, de acordo com o estudo, idades compreendidas entre os 20 e os 39 anos. Cerca de 16 por cento das adolescentes não faz qualquer tipo de contracepção.
INFORMAÇÃO
De uma forma geral, 87 por cento das mulheres inquiridas consideram-se suficientemente informadas sobre os métodos contraceptivos, embora o valor seja inferior nas jovens com idades entre os 15 e os 19 anos.
DOMINANTE
A pílula continua a ser o tipo de contracepção mais usado, escolhido por 88 por cento. No entanto, 22,9 por cento das mulheres referiu já ter utilizado o coito interrompifo, um método que é reconhecidamente falível.
NÉLSON BRITO, GINECOLOGISTA E OBSTETRA: 'O QUE NOS FALTA É INFORMAÇÃO'
Correio da Manhã – Como é que se justifica que tantas jovens sexualmente activas não usem contraceptivos?
Nélson de Brito – O que nos falta é informação. A Democracia, em que vivemos, pressupunha a existência de educação sexual, mas ela continua a ser um tabu. Os mais jovens têm dificuldade até em falar com os pais.
– O que pensa sobre o aumento do consumo da pílula do dia seguinte?
– Penso que isso é também resultado de uma informação correcta e do facto de se poder comprar, muitas vezes, sem qualquer receita médica.
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