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Correio da Manhã

Portugal
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JUÍZES DEVEM ATENDER A LESÕES DO CÉREBRO

“A ruptura, que transforma alguém numa pessoa completamente diferente, é algo de novo e de incontrolável que deve pesar na hora de ser proferida uma sentença”, defendeu ontem, em Lisboa, o investigador português António Damásio, especialista em neurobiologia, durante um seminário organizado pela Ordem dos Advogados com o tema ‘O cérebro, entre o Bem e o Mal’.
29 de Outubro de 2003 às 00:00
Ainda assim, Damásio mostrou-se algo cauteloso ao lembrar que, além dos casos evidentes, há toda uma “zona cinzenta, na qual não se percebe qual a lesão ou trauma que provocou a ruptura e que pode ser utilizada pela defesa do indivíduo”. Tomando como certo o direito da sociedade a proteger-se – “é por isso que há leis”, disse – o cientista português lembrou, porém, que nos casos evidentes de indivíduos com lesões biológicas que cometem crimes “não é aconselhável que sejam enviados para uma prisão, excluídos e sem qualquer tipo de vida construtiva”. “Assim, a sociedade está a eliminar esse indivíduo.”
Hanna Damásio – cientista, mulher de António e a quem o investigador português dedicou o seu último livro, ‘Ao encontro de Espinosa – deu um exemplo de ruptura. Um homem sem nome, nem nacionalidade que aos 35 anos foi submetido a uma intervenção cirúrgica ao cérebro. De modelo para a comunidade, indivíduo empreendedor, pontual e trabalhador, transformou-se em alguém incapaz de planear actividades, incapaz de cumprir horários e de manter o emprego. Outro exemplo chegou da Alemanha, na intervenção do médico Ber-nhard Bogerts, que estudou o cérebro da terrorista alemã Ulrike Meinhof. De jornalista conceituada, Ulrike passou a líder de um grupo de guerrilha urbana. Acabou por se suicidar na prisão, tendo o seu cérebro sido conservado e estudado. O médico alemão defende que a transformação de Ulrike ficou a dever-se a uma cirurgia cerebral a que foi sujeita 14 anos antes de morrer.
Além das lesões e doenças cerebrais em adultos, Hanna Damásio apresentou também resultados de investigações efectuadas em jovens, considerando que se trata de uma situação “muito mais grave” em termos de recuperação, o que procurou demonstrar através de dois exemplos.
A ALMA DEPOIS DO ALMOÇO
Com as questões do corpo discutidas durante a manhã, um advogado, Miguel Veiga, um professor universitário, Fernando Gil, e um padre, Vaz Pinto, debruçaram-se sobre o lado de Alma do Cérebro. Enquanto Miguel Veiga abordou a consciência do lícito e do ilícito perante as realidades complexas da sociedade actual, Fernando Gil começou por lembrar, a propósito do Mal, que entre 1945 e 1992 houve apenas 26 dias de paz e que, apesar de tudo isso, de catástrofes naturais, como terramotos, a fenómenos humanos, como o Holocausto, o homem continua sem perceber o Mal.
Coube ao padre Vaz Pinto uma última tentativa de o explicar. “O Mal não é so ignorância. O grande mistério é alguém que concorda com determinada hierarquia de valores e que opta por não a respeitar”, disse o Alto Comissário para a Imigração.
COLÓQUIO
“Psicologia, Polícia e Segurança” é o tema do colóquio agendado para esta tarde na Universidade Lusófona, em Lisboa, por iniciativa do Departamento de Psicologia, área de Psicologia Criminal e Comportamento Desviante. A sessão conta com a presença de responsáveis pela PSP, GNR e SEF que participam numa mesa redonda, cujos comentários estão a cargo do Inspector-geral da República, Maximiano Rodrigues.
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