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Correio da Manhã

Portugal
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Junta de "mãos atadas" para ajudar sem-abrigo

Idoso, 85 anos, recusa sair da rua.
Sofia Piçarra 19 de Janeiro de 2018 às 01:30
Enrique na escadaria do cinema que lhe serve de abrigo
Sem-abrigo
Enrique na escadaria do cinema que lhe serve de abrigo
Enrique na escadaria do cinema que lhe serve de abrigo
Sem-abrigo
Enrique na escadaria do cinema que lhe serve de abrigo
Enrique na escadaria do cinema que lhe serve de abrigo
Sem-abrigo
Enrique na escadaria do cinema que lhe serve de abrigo
Indiferente ao corrupio da avenida da Liberdade, em Lisboa, Enrique permanece todo o dia e toda a noite na escadaria de acesso ao cinema São Jorge, entre mantas e lixo. Para olhares mais desatentos poderia ser mais um das dezenas de sem-abrigo que pernoitam naquela via da capital, mas, aos 85 anos, praticamente cego, com sinais de demência e vários problemas de saúde, o caso tem despertado a atenção de várias entidades, que não conseguem intervir porque o idoso recusa totalmente qualquer apoio.

"Estamos, nós e qualquer entidade singular ou coletiva que o queira ajudar, completamente de mãos e pés atados", diz ao CM o presidente da Junta de Freguesia de Santo António.

Vasco Morgado garante que "as respostas sociais não abandonaram o Enrique, mas não há um mecanismo legal que nos permita obrigá-lo a aceitar a ajuda". O idoso, que esteve internado no Hospital Júlio de Matos durante alguns meses do ano passado, acabou por regressar à rua, por iniciativa própria, uma vez que formalmente não representa perigo para si ou para os outros. "Só foi assistido quando ficou inconsciente, mas quando o tratamento começa a ser eficaz, e está compensado, não o podemos obrigar a ficar institucionalizado", lamenta.

A Santa Casa da Misericórdia confirma que o caso está sinalizado por 20 entidades, mas "na ausência de um parecer clínico que ateste que Enrique não está mentalmente capaz, não é possível forçar uma intervenção".

O idoso é visitado diariamente por técnicos da Santa Casa, que acompanham a evolução da situação clínica. "Não permite que os médicos se aproximem, mas os psicólogos que o visitam apontam que o seu discurso é, apesar de tudo, lúcido."

PORMENORES
À porta do cinema
Desde 2013 que Enrique ‘vive’ na escadaria do Cinema São Jorge, a qual só deixou durante quatro meses, quando esteve internado no Júlio de Matos. Diz que quer morrer na rua.

Autarca quer nova lei
Vasco Morgado quer que o caso sirva de alerta para alterar a lei. "Da forma como está feita, se internar um idoso, mesmo para seu próprio bem, posso ser acusado de rapto".

Alerta nas redes sociais
A situação foi denunciada nas redes sociais por Sónia Buisel, do movimento Bora Lá. "No estado debilitado em que está e com a idade que tem não pode ser responsável pelas suas ações", explica.

Capacidade financeira
As várias entidades garantem que Enrique, que trabalhou fora do País e tem reforma, tem capacidade financeira para sair da rua, mas não o faz por protesto.
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