Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal

Lésbicas censuradas em escola de Gaia

Uma funcionária da Escola Secundária António Sérgio, em Vila Nova de Gaia, denunciou ao Conselho Executivo (CE) que duas alunas estavam no interior da escola em atitudes “lésbicas e imorais”.
8 de Novembro de 2005 às 00:00
Segundo os colegas, as raparigas, de 19 e 17 anos, disseram que só iam de mão dada pelo corredor, quando foram insultadas e provocadas pela funcionária, conhecedora do seu namoro.
O caso ocorreu há cerca de um mês e foi então levado ao conhecimento do Conselho Executivo. Este deu crédito à auxiliar educativa e encarou o caso como uma quebra do regulamento interno. Por isso, chamou-as e repreendeu-as. Só que as duas alunas participaram à Associação de Estudantes (AE), argumentando que nessa reunião foram humilhadas e discriminadas pelo facto de serem lésbicas.
ESTUDANTES INDIGNADOS
“A versão das alunas preocupou-nos, uma vez que configura um caso de homofobia”, disse ao CM Jorge Pereira, da AE. “O CE afirma que não teve qualquer tratamento homofóbico, mas perante o que elas contaram, era importante esclarecer o assunto”, adiantam Ana Marques e Tiago Machado, também da AE.
Colegas de turma das duas alunas, do 11.º ano, contaram ao CM que elas terão iniciado o namoro assumido há cerca de meio ano. “Dos colegas nunca houve qualquer problema. Estamos solidários com elas.”
A polémica está instalada na escola e até já houve um debate sobre homofobia, com a presença de um representante da Portugal Gay, João Paulo, e da professora e psicóloga Milice Ribeiro Santos, onde o caso foi abordado. O debate decorreu na escola e foi autorizado pelo Conselho Executivo.
"NEM PERCO TEMPO COM ELAS"
O professor António Teixeira, presidente do Conselho Executivo da ‘António Sérgio’, negou a existência de qualquer perseguição às alunas decorrente da sua opção sexual.
“Trata-se de um caso de decência e de cumprimento do regulamento interno, nada tem a ver com a opção sexual dos alunos. Não permitimos beijos, abraços ou apalpões, de heterossexuais ou de homossexuais.” E acrescentou que não é prática do CE interferir nas opções do foro privado dos alunos.
Questionado sobre este caso concreto, António Teixeira disse que as duas alunas em causa são problemáticas, faltosas e vão chumbar. “Nem vou perder tempo com elas”. A previsão do presidente do CE, numa altura em que o ano lectivo apenas começou, é justificada pela sua “experiência”. “Elas já estão a faltar e é fácil ver o que vai acontecer.”
UMA ESCOLA COM PROBLEMAS
'CONCERTINA'
O professor António Teixeira, do CE, mostrou-se incomodado com o eco que o incidente gerou, mas atribui a sua divulgação a “forças obscuras”. “Isto não é por acaso, é uma “concertina”, revela, enigmaticamente.
950 ALUNOS
A Secundária António Sérgio é frequentada por 950 alunos durante o dia e cerca de 1150 no horário nocturno, com cursos que ‘herdou’ quando ainda assumia a designação de Escola Comercial e Industrial.
ESCADAS
Uma das reivindicações da AE da Secundária António Sérgio é o livre acesso às escadas para o primeiro piso. São exclusivas dos professores, o que obriga os alunos a contornar grande parte do edifício.
Ver comentários