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Correio da Manhã

Portugal

Levaram-me a Bianca

Liliana Rodrigues tem 16 anos, foi mãe aos 15, e há dois meses foi obrigada a separar-se da filha, devido a uma decisão do Tribunal de Rio Maior, que não reconhece capacidade à adolescente nem aos avós para tomar conta da bebé. “Levaram-me a Bianca”, queixa-se Liliana, enquanto limpa as lágrimas, acusando a assistência social de “cometer uma injustiça”.
22 de Agosto de 2006 às 00:00
A história, nas palavras de Liliana, é simples e resume-se “à má-língua de algumas vizinhas, que não têm mais nada para fazer do que inventar histórias”. “Foram elas que fizeram a denúncia”, garante, explicando que a Bianca fartava-se de chorar pois “é muito presa dos intestinos”.
“Foi uma denúncia de pessoas que não têm nada para fazer e que nos querem mal. Disseram à assistente social que lhe dávamos porrada. É mentira. Ninguém nesta casa bate em ninguém”, diz Liliana, acrescentando que “as pessoas não estão para ouvir uma criança a chorar e mentiram”. “É verdade que a minha filha chorava muito, mas isso não significa que lhe batêssemos.
Ela chorava com dores por causa dos intestinos”, conta, revoltada com a situação: “Há dois meses que não vejo a minha filha. Desde que a assistente social e a GNR a vieram buscar, não há um dia que não chore por causa da minha menina”.
Liliana vive com os pais, Alda e Luís, e os irmãos Carlos e Fábio.
O rendimento mensal deste agregado familiar, entre a reforma do avô e o ordenado do irmão, é de cerca de 1300 euros. A jovem mãe tem um quarto só para ela e, até há dois meses, para Bianca, onde continua a guardar os brinquedos, as roupas e as recordações. Enquanto mostra um telemóvel de brincar, diz que “era o brinquedo favorito da menina, porque faz um barulhão”.
CASA ANTIGA
Para Liliana, a ideia de entregar a filha para a adopção nunca foi uma hipótese. Desde o primeiro dia em que a teve nos braços, ainda no hospital, sempre recusou afastar-se de Bianca. “Já quando a minha filha nasceu, ainda estava no quarto, a assistente social veio com uma conversa a perguntar se queria dar a minha filha para adopção. Deixou lá ficar os papéis para eu assinar, mas disse-lhe sempre que não. Que a filha era minha e não ia dá-la a ninguém. Não assinei papel nenhum e nunca na vida eu dava a minha filha para adopção. Nem morta”, afirma.
No dia 13 de Junho, pelas 16h30, diz Liliana, a assistente social bateu à porta, na companhia de dois agentes da GNR e um elemento do Ministério Público. “A minha mãe foi abrir a porta porque eu estava ao lado da menina, que estava a dormir, e não quis sair de lá não fosse ela virar-se e cair da cama”, conta. “Eles disseram que a minha filha tinha de ir ao posto de saúde fazer exames. Fui, mais a minha mãe, e na GNR deram-me um papel a explicar que a menina era maltratada. Que éramos uma família disfuncional. É mentira. Vivemos é numa casa antiga, que já era dos meus avós. Sempre tratámos bem a minha menina.”
A esperança de reencontrar Bianca, “seja quando for”, não esmorece. Suspeita do seu paradeiro: “Nunca nos disseram onde ela estava, mas pensamos que esteja numa instituição em Santarém”. Sobre o pai da bebé, um jovem de nacionalidade brasileira que não quis assumir a paternidade, Liliana prefere manter os pormenores só para si, acrescentando apenas tratar-se de “uma história muito complicada”.
AVÓ DESESPERA COM A SOLIDÃO
“Estar nesta casa sem a minha neta é uma tristeza muito grande. A casa é pequenina, mas está arrumadinha. Elas ficavam as duas sozinhas num quartinho”, começa por dizer Alda dos Santos, de 42 anos, desempregada e mãe de seis filhos, revoltada com a decisão de retirarem a bebé da família: “É uma solidão muito grande. Ver as coisas da menina pela casa é muito triste. Farto-me de chorar. O meu filho mais novo, o Fábio Luís, de 8 anos, é um espertalhaço e quase todos os dias pergunta pela bebé”. Desde o momento em que soube da gravidez de Liliana, conta, “nunca se pensou em entregar a menina para adopção, nem em abortar”.
“Os filhos evitam-se, mas não se dão nem se matam. Ela contou-me logo o que tinha acontecido. Foi um azar. Aconteceu e pronto. Já não havia volta a dar. Quando a bebé nasceu, foi o meu marido que ficou responsável por tudo. Assumiu tudo no hospital”, afirma Alda, rematando: “A casa é antiga, mas não é má. Não temos lixo até ao tecto como dizem. Há famílias piores do que nós e não lhes roubam as crianças”.
PRESOS POR TER CÃO...
ww A situação de Bianca I. está entregue ao Tribunal e, após o juiz ter retirado a bebé a Liliana, a advogada do avô apresentou ontem recurso. Ao CM, a Comissão de Protecção de Menores de Rio Maior explicou quais os passos adoptados nestas situações.
“Há uma denúncia, fazemos todas as diligências a que somos obrigados, recolhemos informação junto da comunidade sobre a família e tentamos ajudar a mesma. Quando recusam, encaminhamos para o Ministério Público. Se aceitam o apoio, têm de cumprir o acordo. Caso não cumpram, também encaminhamos”, afirma Nuno Malta, membro da comissão, comentando: “A nossa situação é muito ingrata, porque somos presos por ter cão e presos por não ter. Se agimos, é porque ‘roubamos’ crianças às famílias, se lhes acontece alguma coisa é porque não fazemos nada”. “Após o processo chegar ao Ministério Público, as comissões deixam de ter qualquer interferência no caso e as decisões são da competência do juiz”, conclui.
PERFIL
Liliana Rodrigues tem 16 anos. Filha de Alda Jesus dos Santos e de Luís Rodrigues, engravidou de um rapaz brasileiro com quem teve “uma história muito complicada”. Com apenas 15 anos, não quis ouvir falar em interromper a gravidez e sempre recusou a hipótese de entregar a bebé para adopção.
Como outras adolescentes da sua idade, Liliana tem o quarto decorado com ‘posters’ dos seus cantores favoritos. “Gosto muito de música romântica e de ‘kizomba’”, diz, contando que deixou a escola no quinto ano “porque era ‘judiada’ pelos outros miúdos: roubavam-me dinheiro e puxavam-me os cabelos”.
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