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Correio da Manhã

Portugal
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Lisboa marcha por canábis legalizada

Contra o preconceito, pela legalização” era uma das palavras de ordem que se podia ouvir na marcha pela legalização da canábis, que aconteceu ontem em Lisboa e no Porto. Entre 500 a mil pessoas participaram, em Lisboa, na iniciativa que decorreu em paralelo em 232 cidades de todo o Mundo.
6 de Maio de 2007 às 00:00
Na marcha entre o Largo do Rato e o Camões as centenas de participantes demonstraram que não lhes falta imaginação
Na marcha entre o Largo do Rato e o Camões as centenas de participantes demonstraram que não lhes falta imaginação FOTO: Sérgio Lemos
O objectivo da marcha foi chamar a atenção para as vantagens da despenalização da venda desta droga leve. Para Pedro Pombeiro, estudante de Antropologia e membro da organização, “a verdade tem de ser dita”: “Quem fuma erva não se vai tornar num toxicodependente. Queremos liberdade para escolher o que consumimos.” Adianta ainda que em Portugal existe muito pouca informação sobre o assunto, o que considera ser culpa do Estado.
Para a organização, as vantagens da legalização da ‘maria’, como é apelidada por quem a consome, são óbvias. “Reduz os gastos do Governo na prevenção e repressão nesta área, acaba com o narcotráfico e põe fim à marginalização de quem a fuma”, explica o estudante de Antropologia. Apesar do cuidado em repetir que não se tratava de um apelo ao consumo de drogas, quem esteve presente na marcha garante que está em causa a liberdade de escolha. “Da minha pele para dentro, mando eu”, lia-se em alguns cartazes dos manifestantes.
Para Lara Teunssen, que acompanhou a marcha, é preciso dar passos no sentido de mudar mentalidades. Dada a falta de informação de que os organizadores reclamam no que toca a este assunto, já estão planeados debates e conferências sobre os benefícios do consumo de marijuana.
PORTO ADERE PELA PRIMEIRA VEZ
Os portuenses aderiram em massa à Marcha Global pela Marijuana, que decorreu ontem à tarde. A Invicta associou-se assim, pela primeira vez, à iniciativa. Centenas de pessoas concentraram-se na Praça do Marquês, trazendo consigo camisolas e cartazes de apelo à ‘causa’. “Somos perseguidos por dementes antiterra” ou “Marijuana é um produto natural” eram algumas das palavras de ordem repetidas pelos participantes. A manifestação, que juntou consumidores de todas as idades, foi pacífica. João Carvalho, porta-voz do movimento, afirmou ao CM estar satisfeito com a adesão dos portuenses. “Não tínhamos expectativas porque é a primeira vez que o Porto se junta ao movimento, mas as pessoas responderam de forma positiva ao nosso apelo”, referiu.
POTENCIAL 'GATILHO' DE ESQUIZOFRENIA
Um estudo da revista ‘Lancet’ propôs uma nova classificação para as drogas consoante os perigos e colocou o haxixe e a marijuana atrás do álcool e do tabaco.
Admitindo respeitar a revista, o presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência, João Goulão, explicou ao CM que “o mesmo não é dizer que a marijuana é inócua”, lembrando, por exemplo, o desencadear de uma esquizofrenia. O médico esclarece que “a estatística mostra haver mais esquizofrénicos consumidores”, mas salvaguarda não ser possível estabelecer uma relação de causa e efeito. A dúvida está em perceber “se a canábis desperta a esquizofrenia escondida” ou se “é o sofrimento da doença que leva a procurar alívio no consumo”. Assumindo ser favorável ao “uso terapêutico da marijuana se as vantagens o justificarem”, Goulão diz ser contra a legalização para fins recreativos. “A actual lei, que penaliza, mas mão criminaliza, parece a mais adequada”, defende, recusando, tal como o ex-presidente do Observatório Europeu, que a legalização “terapêutica” sirva de “cavalo de Tróia” aos fins recreativos.
SAIBA MAIS
- 232 cidades acolheram marchas pela legalização da marijuana. Em Moscovo, a manifestação não foi autorizada e seis pessoas acabaram presas.
- 2695 foram as apreensões de marijuana no último ano em Portugal, quase metade das 5847 apreensões de DROGAS
Entre os pedidos de apoio, 11% deveu-se à marijuana, contra 62% da heroína.
VESTUÁRIO
Os promotores da marcha pela legalização insistem que a planta do cânhamo não se esgota nos fins medicinais e recreativos, constituindo alternativa ao algodão.
PAPEL
Outro argumento é o da potencial utilização do cânhamo para o fabrico de papel. Os promotores insistem que numa mesma área o cânhamo produz quatro vezes mais do que árvores florestais.
ALIMENTO
Rico em Ómega 3, o óleo de cânhamo é apresentado como alternativa benéfica ao óleo de linhaça e ao próprio azeite.
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