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Luís Santos inocente

Catorze meses de inferno, dois deles trancado numa cela venezuelana. Mas a Luís Santos ainda faltavam 15 minutos, os mais sofridos da sua vida. Quarta- -feira, 20h00 locais (00h00 em Lisboa). De pé, o co-piloto português assistiu, um por um, à condenação dos restantes nove arguidos pelo Tribunal de Macuto. E, por último, a juíza olhou para ele. Estava inocente e foi posto em liberdade, eram 20h15 (00h15).

16 de dezembro de 2005 às 00:00

A juíza Maria Ester Roa condenou a nove anos de cadeia por tráfico de droga cada uma das três passageiras portuguesas que, em Outubro de 2004, alugaram à Air Luxor o avião – agora perdido para o Estado venezuelano. O Tribunal de Macuto considerou-as culpadas por tráfico dos 400 quilos de cocaína encontrados no porão do avião, estacionado no Aeroporto Internacional de Maiquetia, quando se preparavam para regressar a Portugal.

Os advogados de Maria Margarida Mendes, Maria Virgínia Passos e Maria Antonieta Luís já anunciaram recurso. E presos ficam ainda os seis venezuelanos: quatro condenados a quatro anos e seis meses e, os outros dois, a nove anos de cadeia. Os advogados disseram à Lusa que vão pedir a nulidade do julgamento por considerarem que o processo teve “vícios”.

Recorde-se que, com excepção de Maria Antonieta Luís, as portuguesas, residentes em Arraiolos, já estavam indiciadas por um processo de tráfico de droga, que continua a decorrer em Portugal.

Chegou assim ao fim o calvário de Luís Santos, depois de vinte adiamentos e catorze meses preso, à espera de julgamento. Quarta-feira, o Tribunal deu finalmente como provado que, tanto ele, como a restante tripulação, estavam inocentes.

“Quando o Luís recebeu a decisão da absolvição, foi referido que a tripulação, não só detectou bagagens estranhas no avião, como cumpriu o dever profissional de alertar as autoridades”, lembrou ontem ao Correio da Manhã o seu advogado, Manuel Salta.

O pior, garante, foram “os 15 minutos da última provação. Ninguém imagina o sofrimento e o sacrifício a que ele foi sujeito até ouvir a sentença”. E tudo porque, “numa situação destas, até ao ponto final da sentença, há grandes riscos para culpados e inocentes...”

Quanto ao co-piloto português, que só deve chegar a Lisboa no domingo, sente-se “um sobrevivente” e está “muito contente por se ter feito justiça”. No futuro, garante: “Sou piloto profissional. Se tiver um voo marcado para a Venezuela virei. Com os olhos muito abertos mas tenho de vir”.

Inicialmente detida, e libertada um mês depois, juntamente com o comandante da aeronave, a hospedeira Raquel Neves disse ao CM ter visto a libertação de Luís Santos “com um grande alívio”. “Ele devia ter saído há um ano, na mesma altura que eu. De qualquer forma, fico muito contente e foi a melhor prenda de Natal que podia ter.”

'QUEM TEM INFLUÊNCIA SAFA-SE'

António Marinho, advogado das três portuguesas condenadas na Venezuela a nove anos de cadeia, não se conforma com a “sentença terrorista” do Tribunal. “Foram condenadas pessoas que estão claramente inocentes. E tudo sem que tenha sido feita qualquer prova que justificasse a condenação”, disse ontem ao CM.

Sem se referir directamente a Luís Santos ou à restante tripulação da Air Luxor, o advogado garante que “nunca se viu em Portugal uma campanha tão intensa na Comunicação Social como neste caso”. “Falo do Presidente da República, do procurador-geral da República e do próprio Governo.” Campanha essa que, segundo António Marinho, “foi feita em favor de quem tem dinheiro e poder. Por exemplo, a sr. d. Antonieta Luís também não está indiciada em qualquer processo em Portugal e está tão inocente como eles. Agora, vejam se teve o mesmo tratamento...”.

Para o advogado, só há uma explicação: “Lá como cá, quem tem dinheiro, poder e influência safa-se sempre. Aliás, até é estranho que elas sejam condenadas por tráfico de 400 quilos de cocaína e só apanhem nove anos de prisão...”.

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