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Correio da Manhã

Portugal
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Luta contra a sida falha por ignorância

Ao fim de duas décadas e meia do aparecimento da sida em Portugal, um terço dos portugueses ainda acredita que o VIH – vírus da imunodeficiência humana – se transmite através do uso das casas de banho. Mas não só. Outros crêem que o contágio pode ser feito através de uma picada de insecto, por um simples aperto de mão ou abraço.
29 de Setembro de 2006 às 00:00
A sida não se transmite pelos beijos
A sida não se transmite pelos beijos FOTO: Kiko Huesca/EPA
A maioria (70 por cento) nunca fez um teste de diagnóstico. Ao constatar esta realidade, o coordenador da luta contra a doença em Portugal, Henrique de Barros, admite que se falhou nas campanhas de informação aos portugueses.
Estes dados foram revelados ontem em Lisboa, na apresentação de um estudo realizado pela Marktest para a Coordenação Nacional para a Infecção VIH. O inquérito foi feito a 810 indivíduos, com mais de 18 anos, residentes no continente. As entrevistas foram feitas por telefone e são representativas da população portuguesa.
Henrique de Barros não esperava tão grande falta de conhecimento dos portugueses acerca das formas de transmissão da doença. Questionado pelo CM sobre as razões para tal, o coordenador afirmou: “Essa é uma ferida na capacidade de fazer passar a informação e a pior crítica que podemos receber, a mais evidente. É verdade que não conseguimos fazer passar a mensagem ao longo destes anos.”
Para mudar este cenário, considerou ser necessário apostar na informação e prevenção a vários níveis: nas escolas, nas comunidades religiosas, no sector da saúde e nos órgãos de Comunicação Social.
“Os líderes religiosos devem assumir as suas responsabilidades e encontrarem os seus caminhos para a prevenção”, disse.
Outro dado do estudo indica que 73 por cento dos inquiridos nunca fez o teste VIH. Dos 27 por cento que responderam já tê-lo feito, metade (50,3 por cento) tem idades compreendidas entre os 25 e os 34 anos. A maioria vive na região da Grande Lisboa e pertence às classes sociais mais favorecidas. Afirmando “não estar satisfeito com estes resultados”, o coordenador para a Infecção VIH defende que as pessoas devem fazer o teste de diagnóstico, “que deve ser mais acessível”.
Questionado sobre a necessidade, ou não, dos testes quando o doente é internado ou operado, o responsável afirmou “não haver base legal para pedir o teste indiscriminadamente. Só é feito quando o médico entende ser necessário”.
APONTAMENTOS
SAÚDE PÚBLICA
A esmagadora maioria (90 por cento) dos portugueses que respondeu ao inquérito reconheceu que a sida é um problema de saúde pública no nosso país.
O grupo etário que mais identifica o problema está entre os 45 e os 54 anos. Menos preocupados revelam-se os dos 25 aos 34 anos.
PREOCUPADOS
Os inquiridos que mostraram uma maior preocupação face ao problema da sida foram as mulheres e os residentes nos grandes centros urbanos – Lisboa e Porto.
CENTRO DE DIAGNÓSTICO
A maioria dos inquiridos (61 por cento) referiu conhecer ou já ter ouvi do falar nos CAD – Centro de Aconselhamento e Detecção Precoce –, sendo as classes económicas mais elevadas e os inquiridos dos 35 aos 44 anos os grupos que registam maior nível de conhecimento desses centros.
VÍTIMAS
Até Junho de 2006 morreram em Portugal 6506 pessoas devido à sida. Estima-se que existam 32 000 infectados, especialmente entre os 15 e os 40 anos.
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