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Correio da Manhã

Portugal
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Macas retidas impedem socorro

Onze hospitais de Norte a Sul do País retêm diariamente nas Urgências as macas dos bombeiros que transportam os doentes até ao hospital. A devolução do equipamento chega a demorar 24 horas, o que impede que os bombeiros possam responder a novas chamadas de emergência. A conclusão é preocupante: inúmeros doentes ficam em risco por falta de meios de socorro disponíveis.
16 de Maio de 2005 às 00:00
Tendo em conta os últimos dados – de há 15 dias – é fácil identificar os onze hospitais na lista negra da retenção de macas: S. Francisco Xavier, Cascais, Barreiro, Hospital Garcia de Orta, Santa Maria, Santa Cruz, Vila Franca de Xira (todos da área metropolitana de Lisboa) e ainda os hospitais da Universidade de Coimbra, S. João (Porto), Abrantes e Faro.
A situação foi confirmada ao CM por várias corporações de bombeiros que, a uma só voz, alertam para os riscos que este problema – que garantem ser frequente – acarreta. Opinião contrária têm os hospitais. Ouvidos pelo CM, afirmam tratar-se de situações pontuais, que ocorrem, por exemplo, em surtos de gripe.
A justificação é fortemente rejeitada pelo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Duarte Caldeira: “É um problema frequente e grave, pois a retenção da maca durante horas impede a ambulância de acorrer a chamadas de emergência e isto não é só em períodos de surtos de gripe, acontece quase sempre.”
O comandante dos bombeiros da Parede (Cascais), Pedro Araújo, lembra-se bem de três meses críticos, de Dezembro a Fevereiro. “Nesse período, a retenção das macas de cinco corporações do concelho nas Urgências do hospital de Cascais chegou a ultrapassar as 24 horas .” Aqui a situação foi de tal “forma grave que o hospital teve de adquirir mais dez macas e contratualizar serviços com a antiga maternidade de Oeiras, para receber os doentes.”
O problema de Cascais só será resolvido, continua Pedro Araújo, com o novo hospital. “Até lá, a situação mantém-se.” Parco em justificações, o conselho de administração daquela unidade transmitiu que “já está a fazer os possíveis para libertar as macas dos bombeiros.”
ADMINISTRAÇÕES NEGAM
Na margem Sul, em Almada, o Hospital Garcia de Orta recebe “queixas das corporações de Almada, Cacilhas, Trafaria, Seixal, Sesimbra”, enumera ao CM Luís Moça, da corporação de Cacilhas. Quantas horas ali ficam retidos? “Nove, dez...”
A situação foi tão grave nos primeiros meses do ano que motivou reuniões de emergência entre a direcção de ambas as entidades. O comandante da corporação, António Godinho, acredita que o “problema será resolvido.” Só não consegue explicar quando e em que factos baseia a sua serenidade.
Resignado revela-se o comandante Sérgio Vinagre, dos bombeiros do Barreiro, por todas as vezes em que algum socorrista da sua corporação fica retido no hospital daquela cidade.
O director da Urgência, Cunha Lopes, confessa que o problema passa pela falta de recursos humanos e não pela carência de mobiliário hospitalar. “Não temos enfermeiros e auxiliares em número suficiente para fazer a transferência dos doentes transportados pelos bombeiros. E a solução não passa por adquirir mais macas porque também não teríamos espaço onde as colocar.”
Também o Hospital de S. João, Porto, nega a existência do problema, tal como o de Santa Cruz (em Lisboa). Situações que, todavia, foram reafirmadas pelo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses.
ABRANTES JÁ COMPROU MAIS MACAS
O concelho de Abrantes tem uma população envelhecida, com muitos idosos a residir sós, em locais isolados. “Entre chamar um táxi, e pagar a corrida, ou ligar para os bombeiros, para um transporte gratuito ao hospital, os mais idosos optam pela segunda alternativa. É por isso que muitas vezes se vêem muitos doentes em macas no corredor daquele hospital”, explica ao ‘CM’ José Josué, presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Médio Tejo, entidade que integra três unidades de saúde: de Abrantes, Torres Novas e Tomar.
A grande solicitação aos bombeiros – “que em muitos casos não se justifica” – obrigou a que o hospital de Abrantes adquirisse mais macas, passando de 20 para 30 unidades.
Aquele responsável sublinha que a maior afluência às Urgências e consequente retenção dos bombeiros acontece nos “períodos de surtos de gripe”.
GARCIA DA ORTA ALARGA
Um dos hospitais mais problemáticos é o Garcia de Orta (Almada). Dispõe de 9 camas diferenciadas nas Urgências, três com ventilador. O Serviço de Observações tem 20 camas. O director Álvaro Carvalho diz que o serviço vai ser alargado em mil metros quadrados e estará a funcionar no final do ano. As obras são suportadas “a meias” com o mecenato, que entra com 300 mil euros.
S.FRANCISCO XAVIER ALUGA CAMAS AO DIA
O hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, nega ter falta de macas: “De momento não há motivo para dar esclarecimentos”, mandou dizer pela secretária o presidente do conselho de administração daquela unidade de saúde. No entanto, além de ser alvo das queixas frequentes dos bombeiros, o S. Francisco Xavier pediu camas ao hospital da Santa Casa da Misericórdia de Oeiras, para ali deitar os doentes. Para isso as duas entidades estabeleceram, no início do corrente ano, um protocolo: a Santa Casa cedeu 18 camas, a 104 euros por dia cada unidade.
“Há um pequeno atraso no pagamento, mas irá regularizá-lo, pois o Estado normalmente tem dificuldades de tesouraria”, admite ao ‘CM’ a provedora da instituição, Eduarda Godinho. Aliás, a situação nem sequer é inédita para aquela instituição, já que, antes das camas serem destinadas aos doentes do hospital S. Francisco Xavier, tinham acolhido, durante quatro anos, pacientes que não podiam ficar no Hospital de Cascais por falta de camas.
FARO TEM METADE DAS CAMAS QUE PRECISA TER
O segundo hospital do País onde mais frequentemente os bombeiros ficam com as macas retidas é na Urgência do Hospital Distrital de Faro. Um problema que não é, contudo, admitido pelo director da unidade, Martins Santos, que contrapõe com o aumento do fluxo dos doentes.
“O hospital não tem carência de equipamento, o problema é que o fluxo dos doentes é muito superior em determinadas épocas. Por vezes até se dá o caso de se esperar que os bombeiros venham buscar as macas, que ficam no corredor”, argumentou. Todavia, aquele responsável reconhece que o hospital tem metade do número de camas que precisava ter, dado o rácio nacional. No Serviço Observação conta com dez camas.
O défice das camas representa metade das necessidades, porque, diz, o Algarve tem 800 camas hospitalares e precisávamos ter 1602 camas, se se pensar que tem cerca de um milhão de habitantes. Com “este número de residentes, Lisboa tem vários hospitais e o Sul só dispõe de dois [Faro e Portimão]”, afirmou Martins Santos. Um problema que contribui para a falta de camas são casos sociais. As pessoas surgem nas Urgências e não têm para onde ir. Depois de tratadas acabam por ficar e ocupar uma maca ou cama hospitalar. “Tivemos um cidadão inglês durante três semanas e agora temos, desde Dezembro, um rapaz, de 14 anos, a quem morreu a mãe, sendo que o pai não o quer. Ele também não quer regressar a casa, já engoliu pilhas, por duas vezes, para fugir de casa. O pior é que já arranjou três infecções respiratórias”, declarou o director clínico.
ACORDO, FACTOS, RESPOSTAS
PROTOCOLO DE ESPERA
Um protocolo entre o Ministério da Saúde e a Liga dos Bombeiros Portugueses estabelece que os bombeiros aguardem uma hora na Urgência hospitalar depois do transporte do doente. “Essa espera prevê a possibilidade do doente regressar a casa ou ser transferido e o preço do transporte está incluído”, explica fonte hospitalar.
INEM DESVIADO
A retenção das macas afecta não apenas o socorro dos bombeiros mas também o INEM. Fonte ouvida pelo CM tem bem viva na memória as vezes que foi necessário “desviar ambulâncias de Lisboa para o hospital Garcia de Orta. A demora das ambulâncias nos hospitais, que não servem sem macas, desequilibra a resposta aos doentes.”
TUTELA RESPONDE
O Ministério da Saúde remeteu um esclarecimento para a Direcção-Geral de Saúde. O director Pereira Miguel garante que este problema vai ser analisado. “Vamos ponderar, analisar todos os contornos, para encontrar uma saída porque esta questão tem implicações ao nível do funcionamento dos serviços e prioridade no atendimento aos doentes.”
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