Um dia depois de uma das testemunhas que depôs no processo conhecido como o julgamento da Máfia do Vale do Sousa ter visto a sua casa ser regada com gasolina, um arguido ameaçou outra pessoa que estava a depor em plena sala de audiências. <br/><br/>
O ambiente de intimidação às testemunhas mantém-se e nem o facto de estarem a ser inquiridas por videoconferência e sem que sejam visíveis os seus rostos tem travado as ameaças. Há quem se recuse a aparecer e ainda ontem um depoimento foi adiado, por a testemunha faltar. O medo está instalado, a maioria dos réus continua em liberdade, o que faz aumentar o receio de quem aceita falar ao tribunal.
O incidente de ontem foi protagonizado por Rui Ferreira da Rocha, um dos 43 arguidos, mais conhecido por Rui ‘Cavaleiro'. ‘Zé dos Anzóis', nome de código da testemunha que ontem depôs com a imagem e voz distorcidas por questões de segurança, identificou Rui ‘Cavaleiro' como um dos homens ligados a Toninho ‘Peixeiro', visto como líder de um dos grupos que extorquia dinheiro aos donos de estabelecimentos de diversão nocturna de Penafiel, Lousada e Marco de Canaveses.
Quando estava em frente à câmara para ser identificado por ‘Zé dos Anzóis', Rui ‘Cavaleiro' levou uma mão à orelha, gesto que, imediatamente, foi interpretado pela testemunha - e também pela juíza que a acompanha na sede da Polícia Judiciária - como ameaçador. "O arguido ameaçou a testemunha", garantiu a magistrada.
Rui ‘Cavaleiro' negou-o, mas mesmo assim foi de imediato advertido pela presidente do colectivo de juízes do Tribunal de Penafiel, Luísa Ferreira.
‘Zé dos Anzóis' acabou por contar que o grupo conhecido como ‘Peixeiros' agrediu alunos e outros jovens que participaram nas festas da Escola Secundária Joaquim Araújo, em Penafiel. ‘Zé dos Anzóis' era à data dos acontecimentos um aluno daquele estabelecimento de ensino e recorda-se de que, pelo menos, sete dos arguidos faziam segurança nas festas da escola. Todos estavam sob o comando de Toninho ‘Peixeiro', que recebia por cada evento uma quantia entre os 200 e os 300 euros.
TINHA CHAMADO A GNR A CASA
Há uns meses, a testemunha que viu agora a casa ser destruída pelo fogo pediu ajuda à GNR do Marco de Canaveses, porque alguém estaria a tentar entrar dentro de casa. "Ela contou que estavam a tentar abrir os portões, mas ao verem a GNR fugiram num Opel Corsa a alta velocidade", contou um vizinho. Zélia Pereira tinha todos os bens numa seguradora e já tinha feito um seguro de vida.
AMEAÇAS DE MORTE TAMBÉM A FILHAS
Zélia Pereira, testemunha no caso da Máfia do Vale do Sousa, ficou em estado de choque ao receber a notícia do incêndio que destruiu a casa onde residia, em Marco de Canaveses. "Estava muito nervosa e chorava sem parar. Só conseguia dizer que ‘eles' lhe destruíram tudo", contaram ao CM os senhorios da testemunha, que inicialmente pensavam que a moradora estava em casa.
O incêndio criminoso não surpreendeu os vizinhos, porque Zélia já tinha dito que temia pela própria vida e que era constantemente ameaçada de morte. "Desabafava que não tinha paz e que estavam sempre ameaçá-la, a ela e às filhas. Tinha de andar acompanhada, com medo que lhe acontecesse alguma coisa", disseram os vizinhos.
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