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Correio da Manhã

Portugal
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Maior barreira é preconceito

Elisabete Estanqueiro é cega mas nada a impede de confeccionar pizas, bacalhau com natas ou bolos de chocolate. Após quatro anos no desemprego ambiciona agora montar um pequeno negócio de refeições.
26 de Março de 2007 às 00:00
Elisabete Estanqueiro guarda do tempo de escola algumas “situações menos agradáveis” por ser cega: “Havia uma professora de História, que todos adoravam, que me impediu de tirar apontamentos porque a máquina de escrever fazia barulho, o que a incomodava. Também tive professores que não queriam que eu gravasse as aulas. E havia pais que pediam para eu fazer os testes numa sala à parte para não incomodar os outros alunos com o barulho da máquina de escrever.”
Cresceu, tirou um curso de informática e um outro de telefonista, casou e teve dois filhos, mas o preconceito nunca mais a abandonou. “Olhando bem para as minhas capacidades, acabo por conseguir fazer praticamente tudo o que faz uma pessoa que consiga ver. A maior dificuldade ou barreira que encontro é mesmo o preconceito. Parece que não ver acaba por ser mais difícil para quem nos observa do que para nós”, considera.
Elisabete conta que uma das coisas que gosta de fazer é ir ao cinema, mas acaba por o evitar. “É o meu marido quem me lê as legendas e apesar de ler baixinho as pessoas começam a mandá-lo calar. É uma situação muito desagradável”, comenta.
Em casa prefere as notícias, telenovelas, e documentários sobre saúde e natureza. “Mas o tempo é pouco para a televisão”, acrescenta, lembrando que tem o trabalho doméstico de uma casa com marido e dois filhos para cuidar.
Sublinha que gosta de cuidar da sua imagem e que tem muito cuidado em escolher a roupa e acessórios. “Vou às lojas e gosto de mexer nos tecidos e analisar o corte das peças, mesmo que perca muito tempo com isso”, refere.
Sobre as cores preferidas recorda que sofre de amaurose, uma doença em que há um agravar da perda inicial de visão, pelo que tem memórias de ver cores quando era mais nova. “No Inverno gosto de vestir preto, azul-escuro e cor de vinho. No Verão prefiro verdes suaves e cremes”, diz Elisabete Estanqueiro.
Terminado o ensino secundário e após tirar um curso de informática, a mãe de dois filhos chegou a dar formação no Centro Helen Keller, no bairro do Restelo, em Lisboa.
“Ao fim de cinco anos fiquei desempregada e há quatro anos que tento encontrar outro trabalho. Mas a verdade é que continuo desempregada”, explica. Pretende agora valer-se do seu gosto pela cozinha e montar um negócio de refeições. “É uma ideia que está no início. Mas como todas as pessoas dizem que eu tenho muito jeito para cozinhar e como adoram a minha comida penso cada vez mais nessa possibilidade”, conclui Elisabete.
PERFIL
Elisabete Estanqueiro nasceu há 35 anos em Lisboa. Depois de estudar informática trabalhou cinco anos no Centro Hellen Keller. Desempregada é casada e mãe de dois filhos: Pedro Afonso 7 anos, Inês Constança 4. Vive na Damaia (Amadora).
' EU NÃO VEJO E TU NÃO AMAS', POR ANA CERVEIRA
Este texto foi o vencedor da última edição do Concurso Assis Milton. Consulte o regulamento em www.ajudas.com.
Eu não vejo e tu não amas…
Talvez por sermos tão diferentes, somos tão amigos. Encontro-te hoje mais uma vez num banco largado à beira-rio. O teu rosto tem desenhada a feição da tristeza.
O som do leve ondular das águas invade-me os ouvidos e sinto o odor cálido do rio. Sei que provavelmente olhas o rio, vês a ondulação tímida gerada pela passagem de um barco que observas. Vês a cor das águas e os rostos das crianças que imagino ali brinquem despreocupadamente. Tens na cabeça uma série de imagens, umas a que te agarras outras de que foges, outras que pura e simplesmente ignoras.
Eu apenas queria ter uma. A imagem do meu amor. Nunca a vi, assim como nunca vi a cor das águas que oiço agitarem-se. Conheço-a pelo cheiro, pelo toque, pela intensidade, pela fúria. Sabia sempre quando ela estava longe, mesmo que estivesse aqui ao lado. Sabia sempre quando estava triste, não precisando sequer de lhe sentir as lágrimas que lhe escorriam dos olhos. Sei dela o que sinto, não o que vejo.
De ti sei mais que isso. Sei que guardas imagens dos mais belos rostos de mulher. Sei ainda que pouco mais guardas que isso. Tentas ignorar os lugares, as angústias, as tristezas mal disfarçadas, os cheiros, os toques e os afectos. Os amores que declinaste…
Sei que detestas que te chame à razão. Várias vezes me disseste que não podia saber tudo, até porque, não vejo.
Hoje olhando para o teu rosto triste, respondo-te sem medo, o que tantas vezes te sussurrei… Eu não vejo e tu não amas…
COOPERAÇÃO NO DOWN
No âmbito do Dia Mundial da Síndrome de Down, assinalado no dia 21, as sociedades da síndrome de Down inglesas, escocesas e canadianas juntaram-se ao portal ajudas.com e produziram documentos úteis.
ÁGUA PARA AS CRIANÇAS
Atento às questões da acessibilidade, o Instituto da Água lançou um portal exclusivo para crianças: http://snirh.pt/junior, que se junta ao já existente inagjovem.pt
CONGRESSO INTERNACIONAL
Madrid acolhe entre 19 e 21 de Abril o II Congresso Internacional de Domótica, Robótica e Teleassistência para Todos, onde será discutido o impacto das novas tecnologias em pessoas com limitações funcionais.
UMA FESTA PARA TODOS
O pavilhão desportivo da Universidade do Minho, em Guimarães, recebeu durante o fim-de-semana a primeira Roboparty, inciativa que visou desvendar os enigmas da robótica.
HISTÓRIAS DE ENCANTAR
A Companhia Era Uma Vez repõe no dia 28 a peça ‘Fada Oriana’, no Auditório Horácio Marçal, na Junta de Freguesia de Paranhos, no Porto. Baseada em textos de Sophia de Mello Breyner, destina-se a todas as crianças.
FÓRUM SOBRE DEFICIÊNCIA
Termina na quarta-feira o Fórum ‘Olhares Sobre a Deficiência’, que está a decorrer em várias cidades do País.
TURISMO ACESSÍVEL
A Câmara da Lousã promove um congresso dedicado a actividades turísticas acessíveis para toda a população (www.cm-lousa.pt /provedoria).
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