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Correio da Manhã

Portugal
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Mais obesos com direito à cirurgia

Para “evitar o congestionamento” dos hospitais, a Direcção-Geral de Saúde (DGS) tinha optado por limitar o acesso à cirurgia de tratamento da obesidade a doentes com índice de massa corporal (IMC) superior a 50, mas voltou ontem atrás na decisão e corrigiu a circular normativa publicada há uma semana .
9 de Novembro de 2007 às 00:00
Todas as pessoas com índice de massa corporal superior a 40 (e parte das que têm mais de 35) são candidatas a serem operadas
Todas as pessoas com índice de massa corporal superior a 40 (e parte das que têm mais de 35) são candidatas a serem operadas FOTO: Jorge Godinho
Desta forma, os obesos com IMC igual ou superior a 40 passam igualmente a ser incluídos na lista de doentes inscritos para a cirurgia. Apesar de não existirem dados oficiais, um estudo recente estima que existam em Portugal cerca de 150 mil pessoas com obesidade mórbida, ou seja, com IMC superior a 40.
Abrangidos estão também todos os obesos que tenham um índice de massa corporal superior a 35 com diagnóstico de diabetes ou “alterações graves de mobilidade” e que tenham passado por um processo de acompanhamento hospitalar.
Numa “nota explicativa” colocada no site da DGS, Francisco George, director-geral de Saúde, assume que “por se ter detectado ser passível de incorrecta interpretação” houve necessidade de alterar a redacção da circular normativa dirigida às unidades hospitalares.
“O que tínhamos inicialmente previsto era, uma vez estando devidamente tratados os doentes mais graves, ir-se alargando o tratamento aos outros doentes. Agora fica mais claro, dizendo que há uma prioridade, mas todos os outros doentes que cumpram os requisitos são abrangidos”, adiantou ao CM Francisco George.
Segundo o director-geral de Saúde, “o objectivo [da primeira versão da circular] era dar prioridade ao tratamento dos doentes mais graves”, mas o documento “podia dar a entender que se tratava só da inclusão de doentes com IMC superior a 50”. “Mantém-se o limite prioritário, mas os outros doentes que não chegam aos 50 estão abrangidos pelas medidas.” Ao que o CM apurou, a alteração às normas aconteceu na sequência de uma reunião entre a DGS e a Associação de Doentes Obesos e ex-Obesos (Adexo).
Reconhecendo que “a intenção de ‘priorizar’ o tratamento dava azo a uma má interpretação”, Carlos Oliveira, presidente da Adexo, disse ao CM que “o grosso dos doentes portugueses está entre 43 e 47 de IMC”. “Nunca os hospitais iam conseguir fazer 80 cirurgias por ano a doentes com IMC superior a 50 porque não existem tantos superobesos no País.”
Para António Sérgio, presidente da Sociedade Portuguesa para a Cirurgia da Obesidade, “é indiscutível a prioridade dos doentes com IMC superior a 50, mas não se podiam deixar todos os outros sem tratamento. Só pode ter sido um mal-entendido”.
MAIS DE CINCO MIL EM LISTA DE ESPERA
A contabilização não é oficial, mas, segundo Carlos Oliveira, presidente da Adexo, “neste momento, numa estimativa por alto, teremos na ordem das cinco, talvez seis mil pessoas em lista de espera para cirurgia” de tratamento da obesidade em todo o País. A ausência de números concretos é justificada por Alexandre Dinis, da DGS, pela falta de normas específicas na área, apenas regulada aquando da publicação da circular normativa da última sexta-feira. “Não temos dados actuais porque o sistema tem estado sem regras, daí a necessidade de criar a circular com as especificações dos critérios que cada unidade de saúde tem de cumprir”, disse ao CM. A recém-criada Comissão Nacional de Avaliação do Tratamento Cirúrgico da Obesidade tem agora a missão de verificar o cumprimento destes critérios, remetendo “relatórios mensais ao director-geral da Saúde”. Cabe também à comissão comprovar se os hospitais estão a fazer as 80 operações a que estão obrigados e “propor as medidas a aplicar” em caso de incumprimento.
NOTAS SOLTAS
EXCESSO DE PESO
Um estudo recente, coordenado pela endocrinologista Isabel do Carmo, revelou que cerca de 60 por cento da população portuguesa tem excesso de peso e que cerca de 30 por cento das pessoas sofre de problemas de obesidade.
COZINHA SAUDÁVEL
Bruxelas lançou o Dia Europeu da Alimentação e Cozinha Saudáveis com o objectivo de encorajar as crianças a seguir uma boa dieta e combater a tendência crescente da obesidade infantil na Europa.
CUSTO DAS OPERAÇÕES
Cada cirurgia de tratamento da obesidade representa um custo para os hospitais públicos de cerca de 4500 euros.
SAIBA MAIS
377 antes de Cristo terá sido o ano da morte do grego Hipócrates, pai da Medicina, que foi o primeiro a detectar uma ligação directa entre obesidade e problemas de saúde.
560 é o número de quilos do mexicano Manuel Uribe, de 41 anos, que é o homem mais pesado do Mundo, segundo a edição de 2008 do ‘Livro de Recordes do Guinness’.
MÓRBIDA
Diz-se do tipo de obesidade em que o índice de massa corporal ultrapassa os 40. Quem dela sofre tem maiores hipóteses de ter problemas de saúde graves, incluindo tumores cancerígenos.
HIPOTÁLAMO
É a região do cérebro responsável por, entre outras importantes missões, a regulação da quantidade de calorias de que o organismo necessita.
PIONEIRO
O belga Adolphe Quetelet foi o criador do índice de massa corporal. Século e meio mais tarde, esse sistema ainda é aplicado.
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