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Correio da Manhã

Portugal
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MANUAIS ENSINAM EM ESCUDOS

Pelo menos quatro dos manuais escolares de Introdução à Economia (10º ano) continuam a apresentar exercícios em escudos nove meses depois da entrada em circulação do euro.
17 de Setembro de 2002 às 23:50
Os editores dizem que a culpa não é deles, pois os livros para este nível de ensino têm um período de vigência de três anos e a revisão curricular foi suspensa. Na prática, isso significa que os manuais em vigor foram escolhidos em 1999 (escritos em 98 e impressos em 98/99) e feitos com base num programa com doze anos.

Dizem ainda que partiu deles a iniciativa de alertar o Ministério da Educação para que desse orientações. Se no caso do Básico, o Ministério explicou tudo muito bem, no caso do Secundário deixou aos editores esse papel.

As alterações foram feitas, mas a verdade é que o escudo ainda aparece nos manuais em vigor. E tanto aparece em edições de 1999 (Asa e Lisboa Editora) como de Julho deste ano (Plátano Editora).

Se bem que todos os manuais expliquem o que é o euro, o caso muda de figura quando se passa a exemplos concretos. O CM analisou quatro livros e encontrou de tudo um pouco, desde os que apresentam contas em escudos, aos que misturam escudos com euros, passando por um manual que nem um quadro com exercícios demonstrativos tem para a amostra!

E como se isso não bastasse, muitos manuais continuam a apresentar fotos de notas e moedas de escudo em sã convivência com euros! Em alguns deles aparecem mesmo fotografias de produtos com preços em euros e escudos, mas, algumas páginas à frente, as contas são em escudos.

“Não conhecia esses casos. Como ministro da Educação claro que isso me incomoda, mas tenho de cumprir com o quadro legal em vigor. Mas vamos criar mecanismos de avaliação dos manuais em vigor”, garantiu David Justino ao CM.

“O que é criticável é que não se tenha feito, atempadamente, a conversão de escudos para euros. À data, o Ministério da Educação devia ter isso em consideração”, sublinhou, chamando a atenção para o facto de existir legislação para avaliar a qualidade dos manuais mas a mesma nunca ter sido aplicada.

No artigo 6 do decreto-lei 369/90 diz-se claramente que o Ministério da Educação “constitui comissões científico-pedagógicas para apreciação da qualidades dos manuais escolares, com excepção dos manuais relativos à disciplina de Educação Moral e Religiosa”. Isso nunca aconteceu.

Na prática, a avaliação dos manuais é feita nas escolas, pelos professores, que depois enviam para o Ministério uma grelha com os resultados. Ou seja: o Ministério não é tido nem achado na escolha dos livros.

“Mal seria se os professores não soubessem escolher os manuais”, diz Vasco Teixeira, da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.

“O manual é avaliado no momento em que é adoptado”, diz, por seu turno, Manuel Ferrão, da União de Editores Portugueses.

Legitimidade

“Neste contexto - suspensão da revisão curricular - é perfeitamente legítimo que o nosso manual contenha os exercícios em escudos, uma vez que o programa do Ministério da Educação, segundo o qual o livro foi elaborado, aborda apenas o escudo”, diz Paula Prata, da Plátano.

Quanto ao facto de em algumas páginas se verem cartazes mostrando produtos com preços em euros e escudos, Paula Prata diz que essas situações “só demonstram a inovação que o manual continha na época e o cuidado que as autoras e a editora tiveram em elaborar um manual o mais actualizado possível.

Foram situações introduzidas numa fase final, à boca de impressão, depois de, em Janeiro de 1999, se ter conhecido a taxa de conversão do euro”.

Resposta das editoras

Plátano

A capa é ilustrada com euros mas alguns exercícios são em escudos. O livro foi reimpresso em Julho de 2002. “Não se procederam às alterações porque havendo diferenças de edição para edição torna-se-ia confuso dentro da mesma sala de aula coexistirem alunos com edições diferentes”, diz Paula Prata.

Porto Editora

Na edição de 2002 todos os quadros e exercícios já aparecem em euros, garante Vasco Teixeira. Mas um aluno que tiver a edição de 2001, lida com escudos. Ver, por exemplo, a página 269, onde o sector dos seguros em Portugal é apresentado em escudos e euros, consoante a edição. E há fotos que mostram escudos.

Asa

Aparecem contas em euros e em escudos. A própria editora avisou as escolas para não adoptarem este livro, pois não iria ser reimpresso. Mesmo assim, alguns professores escolheram este manual. As vendas, segundo o editor, foram de 199 exemplares. “Fiz o que me competia”, diz o editor Augusto Areal.

Lisboa Editora

Também aparecem contas em escudos (pg. 203). Mas não existem quadros com exercícios em euros. “Não achámos necessário, no 10º ano, colocar esse tipo de quadros. Os alunos já estão habituados ao euro. A vida prática é a melhor escola para esse exercício”, diz Maria de Lurdes Paixão.
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