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Correio da Manhã

Portugal
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Mar aterroriza Esmoriz

Já lá diz o ditado popular: ‘Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.’ Mas não é só o povo que o diz, também os especialistas em erosão costeira chegaram à mesma conclusão.
28 de Janeiro de 2007 às 00:00
A praia de Esmoriz, no concelho de Ovar, é apenas uma entre quatro dezenas de locais identificados num relatório da Comissão Europeia, como sendo de intervenção imediata. Mas já está na lista ‘negra’ da erosão costeira há mais de uma década, sem que nada de relevo se tenho feito para além de alimentar os espo-rões (protecções costeiras) com mais pedra.
O inevitável avanço do mar e a quebra de resistência dos esporões estão a deixar centenas de famílias à beira de uma tragédia. Basta um capricho da natureza para perderem haveres, como já aconteceu em invernos anteriores.
Maria do Rosário, de 50 anos mora no extremo Sul da praia de Esmoriz, numa casa feita de madeira, a escassos 20 metros do mar, e todos os dias teme pela sua vida e dos seus nove familiares. “À noite, quando as ondas batem nas pedras, mesmo por trás de casa, é como se fosse um tremor de terra. Até abana as camas”, explica.
Há nove anos, esta mulher, que sempre viveu do que o mar tem para dar, chegou a casa, vinda da procissão da Senhora da Nazaré, e encontrou tudo alagado. “As marés vivas de Setembro tinham vindo, sem pedir licença e destruíram tudo. Na altura fiquei sem nada. Foram precisos vários anos de sacrifício para conseguir juntar mais alguma coisita”, relembra.
Depois disso, Maria do Rosário não se tem cansado de pedir ajuda à Junta de Freguesia para que reforce as protecções costeiras junto à casa, mas sem grande sucesso. “Já avisei que há um rombo mesmo ao endireito da casa e respondem-me que não há verba para arranjar. Estamos aqui entregues ao nosso destino.”
HÁ ESPERA DE CASA
Vítor Oliveira, um pescador de 42 anos, também morador do bairro, recorda que há cerca de duas décadas a praia tinha mais de 100 metros de extensão. Os veraneantes eram às centenas e a pesca da xávega – arte que usa juntas de bois ou tractores para puxar as redes para terra – ocupava grande parte do areal. Hoje, o mar lambe as rochas, mesmo em frente ao bairro, e nem há sítio para os barcos atracarem.
Enquanto conserta as redes que o mar também vai estragando, o mesmo pescador conta como há cerca de dois meses “a fúria das águas foi de tal ordem que arrastou para a estrada várias pedras pequenas”, deixando as defesas ainda mais fragilizadas.
Vítor Oliveira, que mora no bairro há 25 anos com a mulher e quatro filhos, até diz na brincadeira: “Não tarda nada em vez de morar numa casa moro num barco.”
Apesar do drama do bairro piscatório ser relembrado todos os invernos, o que é certo é que o prometido realojamento para as 252 famílias não passa de uma miragem. “Primeiro não tinham terreno, agora que o têm não se vê jeitos de arrancarem com a obra”, salientam vários moradores.
A autarquia de Ovar assinou, no ano passado, um protocolo de colaboração com o Instituto Nacional de Habitação para a construção de casas em regime de custos controlados. De acordo com fonte da autarquia, “o projecto, orçado em mais de 16 milhões de euros, está a decorrer dentro dos prazos”.
LOCAIS EM PERIGO
PARAMOS
A comunidade piscatória de Paramos, em Espinho, corre o risco de ser engolida pelo mar. A Capela de S. João tem sido alvo de várias inundações. O medo é um sentimento diário.
AGUEIRA
Mais a Sul, no concelho de Vagos, a pressão da construção urbanística colocou vários prédios e habitações unifamiliares na linha de risco. E o problema é que o mar avança rapidamente.
OFIR
É a praia das três torres mais ameaçada do País. Fica no concelho de Esposende e José Sócrates, quando era ministro do Ambiente, prometeu demoli-las, mas o perigo continua. São sobretudo apartamentos de férias de pessoas da cidade de Braga.
MOLEDO
A erosão também chegou à praia VIP do Minho, onde passam férias, entre outros, Jorge Sampaio e Durão Barroso. Este ano há menos dois metros de areal.
DIRECTOR SOB FOGO CRUZADO
O PSD de Esposende quer que o ministro do Ambiente intervenha no sentido de travar a construção de casas nas dunas das praias do Município. O início das escavações para a edificação de uma casa nas dunas da praia Suave Mar, na freguesia das Marinhas, reacendeu uma guerra política que parecia fazer parte do passado. A Junta de Freguesia, do PS, acusou a Câmara (PSD) e o Parque Natural do Litoral Norte de serem os responsáveis pelo regresso do betão armado à zona dunar.
A autarquia fez saber que as licenças dependem apenas do Parque Natural e que não tem competência para as impedir. Agora, é o PSD que vem solicitar a intervenção directa do ministro do Ambiente, para que seja suspensa a construção da vivenda e para que o director do Parque Natural do Litoral Norte, Duarte Figueiredo, seja afastado do cargo.
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