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Correio da Manhã

Portugal
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Mata rival e um amigo

Uma guerra de gangs juvenis fez dois mortos a tiro, na madrugada de ontem, em Rio de Mouro, Linha de Sintra. Horas depois, o atirador – Edgar, de 16 anos, referenciado por diversos crimes de furto – foi detido em casa, no Cacém, por uma brigada da Secção de Homicídios da Polícia Judiciária.
29 de Janeiro de 2008 às 00:30
Edgar, armado com uma pistola de defesa pessoal, disparou contra Osvaldo, de 18 anos, membro de um gang rival. Segundo fonte policial, tratou-se de “ajuste de contas”. A vítima foi atingida na cabeça.
O atirador fugiu em direcção à estação do caminho-de-ferro e, enquanto corria, disparou vários tiros: baleou acidentalmente o amigo Francisco, de 18 anos, também residente no Cacém.
Francisco foi socorrido pelos outros rapazes do gang do Cacém – que o arrastaram até à praça de táxis, junto da estação, e tentaram metê-lo dentro de um táxi. O taxista recusou transportar o ferido. Alguém ligou para o 112 e pediu uma ambulância.
A menos de 200 metros da praça de táxis, Osvaldo agonizava ferido de morte: morreu momentos depois nos braços da namorada, perante o olhar impotente dos amigos que gritaram a quem acorreu às janelas: “Chamem uma ambulância, por amor de Deus, chamem uma ambulância”.
Uma patrulha da GNR e uma equipa do INEM foram enviadas para o local. Um taxista que entretanto chegara à praça da estação de Rio de Mouro conta ao CM o que viu: “A GNR já tinha vedado a zona e o corpo de Francisco estava coberto por um lençol”.
PAIS ABREM A PORTA
A Polícia Judiciária chegou facilmente à casa de Edgar, no Cacém, e foram os pais do jovem homicida que abriram a porta aos inspectores, pelas 02h30. A arma utilizada nos disparos foi apreendida – uma pistola 6.35mm em situação ilegal – e Edgar confessou “parcialmente” os crimes, apurou o CM. Será hoje de manhã presente ao Tribunal de Sintra.
Quanto às duas vítimas, a morte foi declarada no local, depois da chegada das ambulâncias do INEM, tendo os corpos sido transportados para o Instituto de Medicina Legal, onde vão ser autopsiados.
FUTEBOL, BIFANAS E COCA-COLA
O gang do Cacém terá chegado a Rio de Mouro pelas 21h00 de anteontem, quando Osvaldo – o jovem da Rinchoa morto – entrou no café A Brasília para chamar os colegas que aí assistiam ao jogo de futebol Sporting-Porto, comendo bifanas e bebendo coca-colas. “Eles pagaram a conta e saíram todos”, contou ao CM uma empregada, sublinhando que durante o tempo que ali estiveram portaram-se sempre de forma educada. A mesma empregada só se apercebeu dos crimes quando viu chegar a GNR e as ambulâncias, que entraram na rua em sentido contrário. Mas foram muitos os moradores na Rua Mário Graça que ouviram os tiros. “Ouvi um e não liguei. Mas quando ouvi mais dois vim à janela e já só os vi todos furiosos a gritarem que queriam uma ambulância e a darem pontapés nos carros estacionados”. A moradora acrescenta ainda que assistiu aos gritos da mãe de Osvaldo: “Ela só dizia que ele nem tinha ainda 20 anos.”
ARMADOS COM NAVALHAS OU PISTOLAS
Moram ou trabalham perto da estação de Rio de Mouro e assistem a tudo – mas não dão a cara com medo de vingança. “Rapazes com 15, 16, 17 anos, brancos e negros, juntam-se e, armados, provocam as pessoas. Muitas vezes acabam por se desentenderem e então é vê-los puxar da faca ou da pistola. Sim, andam armados e trazem raparigas.” O homem, na casa dos 50 anos, fala de grupos enormes. “São aos vinte ou aos trinta, andam por cima dos carros e quando chega a GNR fogem para a estação”. Esta testemunha garante que, desde há uns meses, a situação piorou. “É rara a noite em que não ouço uma sirene. Mas não é só aqui. É também nas estações das Merçês, Agualva”. Segundo fonte policial, estes grupos ou gangs da Linha de Sintra deslocam-se nos comboios, sobretudo durante as madrugadas de sábado e domingo.
PORMENORES
CONHECIDOS DA GNR
Osvaldo era bem conhecido da GNR local: estava identificado por crimes de pequeno furto. Tal como o gang a que pertencia, também ele se dedicava ao pequeno tráfico de droga e o furto para obter dinheiro.
RIVAIS DO TERRITÓRIO
Os gangs da Rinchoa e do Cacém têm rivalidade conhecida: “disputam território, áreas de negócio e trabalho (zonas onde cometem os crimes) e as ‘damas’”, diz fonte policial.
GUERRA DE GANGS
Dois gangs têm mantido a GNR de Rio de Mouro em alerta. Um grupo do Bairro 6 de Maio desentendeu-se com estudantes de uma escola e seguiram-se ameaças de violência.
MEDO DA MUDANÇA
Elogiando a GNR – “que enfrenta os bandidos” - populares afirmam temer a saída da Guarda e a chegada da PSP, que já tem sob sua alçada a estação da CP.
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