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Correio da Manhã

Portugal
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MATEI UM POLÍCIA POR CAUSA DA DROGA

São os mais recentes moradores do Intendente, em Lisboa. Com a demolição do Casal Ventoso, mais de uma centena de toxicodependentes mudou de “poiso” e, agora, vivem ao deus-dará, entre seringas e cachimbos.
23 de Outubro de 2003 às 00:00
João Bagão: Fim à droga
João Bagão: Fim à droga FOTO: Pedro Catarino
João Bagão, 40 anos, nasceu em Lisboa, e ainda criança emigrou com os pais para os Estados Unidos. No fim da adolescência caiu na droga abrindo caminho para uma vida na América que terminou da pior maneira. “Em Nova Jérsia, aos 17 anos, comecei a consumir heroína e cocaína. Via os outros e não queria ficar à margem”, explicou João Bagão, que há um ano foi expulso para o nosso país. Agarrado à droga, depressa caiu no mundo do crime. “Por causa da droga estive preso 13 anos por matar um polícia, e mais dez anos por vender droga”, conta. João Bagão esclareceu que há dez anos que não consome drogas duras: a razão por que o faz é clara: “Não me quero meter em mais problemas; agora só fumo haxixe”. “Ganho a vida a carregar caixas e durmo na rua”, desabafa.
A falta de oportunidades para sair da rua é uma das queixas mais ouvidas entre os jovens que por um presente ou passado ligados à droga dormem em lares de apoio e tomam as refeições na Santa Casa. Para Helder Oliveira, 35 anos, que há dois meses vive limpo de drogas, o mesmo sentido para a vida parece fugir-lhe das mãos. “Vivo numa situação terrível. Sabe o que é não ter uma coisa tão simples como um quarto com uma televisão, para se, por exemplo, quiser ficar a dormir até mais tarde o poder fazer?”, refere Hélder, que aos 15 anos cometeu “o erro da vida ao experimentar droga”. “Há uma geração, entre os 25 e 40 anos, que são pessoas incapacitadas e à mercê de tudo. Sinto-me numa situação muito delicada. Ontem, andei o dia todo a carregar caixas, ganhei 20 euros. Mas, o que é que eu vou fazer ao dinheiro? Não tenho objectivos, ando o dia todo aqui pelo Intendente a deambular, acabo por o gastar todo em cerveja. Mesmo depois de deixarmos a droga não temos uma oportunidade”, referiu.
“LUTO POR UMA VIDA NORMAL”
“Prefiro que me conheçam por ‘13’; é o meu número de sorte...”. Sentado no passeio mais escondido da rua do Anjos, P., de 32 anos, começa por contar a sua história ligada à droga com os olhos postos no futuro e as mãos seguras no passado. ‘13’ segura um cachimbo de fabrico artesanal a partir do qual consome cocaína. “É uma sensação boa, algo de indiscritível, a coca é uma droga gulosa, estamos sempre a consumir para estar sempre a sentir”, disse. O jovem, nascido em Lisboa, avança então para os seus objectivos de futuro.
“Ao fim de dois anos consegui entrar para um programa de metadona. Só tenho pena é que seja tão difícil conseguirmos uma vaga. Não percebo por que não há maior empenho das autoridades. Aqui há uns meses havia muito mais gente a injectar-se, hoje, graças à metadona são menos”, referiu. “Com a metadona vêem-se as melhoras imediatamente. Não sinto o vazio, nem me sinto apático e consigo ter uma vida normal e é disso que preciso para viver com a família”, adiantou.
Nuno Miguel Vaz, 27 anos, nascido nos Olivais, é mais um exemplo de uma luta permanente de entrega e fuga ao pó. “Isto é uma porcaria. O que posso dizer aos miúdos é que nunca toquem nisto. Cheguei a um ponto de morte... vivo na miséria e mesmo assim quero a miséria”, referiu enquanto estava sob o efeito de uma “pedrada” resultante da mistura de heroína e cocaína. “Cada dose custa dez euros e dá para dois chutos. Em média, costumo ‘chutar’ cinco vezes por dia”, confessa.
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