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Correio da Manhã

Portugal
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Matosinhos ainda chora morte de 152 pescadores

"O vento virou de sudoeste para noroeste. Matosinhos vai ficar de luto.” A frase que antecipava a tragédia tem já 60 anos e foi dita por um dos bombeiros a Maria Emília Rodrigues, que perdeu o marido no naufrágio de 1947, ficando então responsável pela criação de cinco filhos: o mais velho com dez anos e o mais novo com dois meses de idade.
3 de Dezembro de 2007 às 00:00
Maior acidente com barcos de pesca na História de Portugal foi ontem relembrado
Maior acidente com barcos de pesca na História de Portugal foi ontem relembrado FOTO: José Rebelo
Histórias como esta foram ontem lembradas numa homenagem da Junta de Freguesia de Matosinhos às 152 vítimas da fatídica madrugada de 2 de Dezembro de 1947. Morreram 152 pescadores ao largo da costa entre Aguda e Leixões, na sequência do naufrágio das traineiras ‘D. Manuel’, ‘S. Salvador’, ‘Maria Miguel’ e ‘Rosa Faustino’.
Agora com 89 anos, mas perfeitamente lúcida, Maria Emília recorda o dia em que ficou sem o companheiro. “Era uma da manhã e o meu marido até estava doente. Chegou o meu cunhado a chamá-lo, que era preciso ir para o mar, e o Manuel não conseguiu recusar. Disse-me ‘Até amanhã’, mas eu respondi-lhe ‘Até logo’.”
Nenhum tinha razão. Manuel Sá Pereira – ou ‘Chalão’, como era conhecido – nunca mais regressou da terrível tempestade, onde faleceu junto com os seus dois irmãos e deixou viúva, aos 29 anos, Maria Emília. “Ficar responsável por cinco filhos numa idade tão jovem foi bastante difícil. Mas consegui criá-los e, graças a Deus, hoje são todos muito bem sucedidos”, refere, sem esquecer todo o calvário por que passou: “Sofri muito. Chorei e ainda hoje choro ao olhar para o meu retrato de casamento. Foi uma tragédia.”
LIVRO APRESENTADO
A Junta de Freguesia de Matosinhos não deixou passar em claro esse aniversário. Foi apresentado um livro que reúne as memórias dos seis sobreviventes das embarcações que cederam na tempestade, as histórias dos que perderam familiares no naufrágio, assim como uma investigação cuidada com base nos jornais da época. A obra de António Cunha e Silva e Belmiro Galego tem o nome de ‘Naufrágio de 1947 – Toda a Saudade é um Cais de Pedra’.
Estava previsto que um exemplar do livro fosse colocado dentro de um baú envolto por uma fita negra, cuja ponta o presidente da Junta de Freguesia de Matosinhos, António Parada, iria levar a nado até uma embarcação de pesca. Ainda o tentou fazer, mas o mar não deixou, como que a dizer que os seus perigos não se esgotaram em 1947.
"JAMAIS HOUVE TEMPESTADE IGUAL"
António ‘Veluda’ Malheiro também esteve no mar na noite fatídica de 2 de Dezembro de 1947, noutra embarcação que não as quatro que sucumbiram. Diz ‘Veluda’, como é conhecido, que nunca viu coisa igual. “Eram ondas de oito a dez metros. Ou mais!Quando a água caía sobre nós pareciam pedras na cabeça. Jamais houve tempestade igual”, conta quem tinha 18 anos na altura do acidente e que descreve o seu alívio quando chegou a terra: “Foi uma sensação incrível. Cheguei a casa e caí como um prego na cama. De manhã, acordei com a triste notícia.”
Foi junto à estátua que relembra o naufrágio e o sofrimento dos familiares que António Veluda recordou esse momento: “Ainda hoje me custa falar sobre isso e todos os amigos que perdi. Era uma gritaria a ecoar pela praia. Nunca me esquecerei da tragédia.”
SAIBA MAIS
71 mulheres ficaram viúvas no naufrágio, que deixou órfãs mais de 150 crianças. Uma delas, então com dois meses de idade, é o actual líder da Associação Comercial de Matosinhos, Fernando Sá Pereira.
6 foram os sobreviventes das quatro embarcações naufragadas. José ‘Ilhoça’, tripulante da traineira ‘Rosa Faustino’, morreu no passado dia 13 de Outubro.
IMPEDIDOS
Na altura em que começaram a dar à costa os cadáveres, os familiares foram impedidos de tlentar reconhecer os entes queridos, aumentando ainda a dor que sentiam.
PRESSÁGIOS
Após a saída do marido de casa, Maria Emília colocou o vestido de casamento e sentiu “algo estranho”. Era presságio de que o companheiro “não voltaria”.
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