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Correio da Manhã

Portugal

Matou a mulher por engano

Acordado a meio da madrugada, Amadeu Figueiredo pensou ver um ladrão em casa. Apontou a arma caçadeira e disparou. Atingiu o alvo, mas acabava de matar a mulher.
14 de Setembro de 2006 às 00:00
O crime aconteceu na madrugada de ontem na residência do casal, em Quinta dos Areais (Viseu) e está a ser investigado pela PJ.
Foi o autor do disparo quem, pelas 04h45, pediu ajuda pelo 112 e alertou a PSP para o sucedido. Amadeu Figueiredo – católico praticante, de 67 anos, reformado da Portugal Telecom, onde era motorista – confessou às autoridades que tinha acabado de alvejar a mulher, de 66 anos, com um tiro de caçadeira.
Quando os agentes entraram na casa, a vítima estava caída no chão e o idoso debruçado sobre o corpo, pressionando a zona atingida. “Aparentemente tentou minorar os danos através de uma espécie de garrote”, disse a PSP.
Alvejada no abdómen, Luciana Figueiredo já estava morta quando a Polícia e os bombeiros chegaram. O crime terá ocorrido quando o casal se levantou a meio da noite, por motivos desconhecidos, e o marido – segundo disse – a confundiu com um intruso.
“Tudo leva a crer que terá disparado e só depois se apercebeu de que era a mulher”, referiu a Polícia. “Eles tinham receio de viver sozinhos e o sentimento de insegurança poderá ter estado na base desta situação dramática.”
A PSP não tem qualquer informação que aponte para um historial de violência entre o casal, junto há 14 anos, embora alguns vizinhos afirmem que havia desentendimentos graves.
Detido sem resistir, Amadeu Figueiredo foi presente a Tribunal, onde regressa hoje, pelas 09h00, para conhecer as medidas de coacção.
SUSPEITO DE HOMICÍDIO INVOLUNTÁRIO
Amadeu Figueiredo diz que matou a mulher sem querer. Se a investigação da Polícia Judiciária confirmar a confissão, pode vir a ser acusado pelo Ministério Público de homicídio por negligência ou involuntário.
A ser assim, o arguido poderá ser condenado a uma pena de prisão até três anos ou a uma multa – e, neste caso, é provável que o Tribunal o mande hoje aguardar o julgamento em liberdade.
O Código Penal prevê ainda outros tipos de homicídio, como ‘a pedido da vítima’, ‘privilegiado’; ‘qualificado’, ‘preintencional’ e ‘simples’.
As penas oscilam entre uma pena de prisão de um a cinco anos, no caso do ‘privilegiado’ – quando há atenuantes muito relevantes – e de 12 até 25 anos de cadeia quando se trata de homicídio que se reveste de particular perversidade e censura. No caso de Viseu, pelo dados divulgados até agora, o mais razoável é que a tragédia se enquadre num homicídio involuntário, mas a investigação ainda tem muito para esclarecer.
Por exemplo, a relação no seio do casal – nomeadamente se as suspeitas de conflitos entre ambos adiantadas por vizinhos têm razão de ser –, o que faziam ambos a pé de madrugada e anular a hipótese de cenário encontrado pelas autoridades ter sido montado pelo arguido.
INVESTIGAÇÃO
ARMA APREENDIDA
A Polícia apreendeu na habitação uma caçadeira, legalizada em nome de Amadeu Figueiredo. Terá sido a arma do crime e vai ser alvo de perícias. O cadáver da vítima foi levantado pelas 09h55 e transportado para a morgue do Hospital de S. Teotónio, para autópsia.
JUÍZA PRUDENTE
O detido foi conduzido a Tribunal pelas 14h00 a fim de ser sujeito a primeiro interrogatório. A juíza ouviu-o, mas quis esperar pela acção da PJ e pela recolha de mais elementos de prova. Assim, só hoje, numa segunda audiência, às 09h00, serão conhecidas as medidas de coacção.
FAMÍLIA DE FARDAS
Amadeu e Luciana estavam casados há 14 anos, sem filhos. De um primeiro casamento o idoso tem dois filhos. Um deles é militar da GNR e está casado com uma agente da PSP.
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