Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
8

Matou-se e levou filha deficiente

Desesperada com a dependência e sofrimento da filha deficiente, uma mulher de 50 anos lançou-se ontem de carro do Cabo Espichel, em Sesimbra, de uma altura de mais de cem metros. Com ela levou a filha, de 25 anos, que sempre precisou da mãe para comer e andar. As duas tiveram morte imediata.
31 de Maio de 2007 às 00:00
 O Citroën C3, de cor vermelha, ficou completamente destruído após uma queda de mais de cem metros de altura. O corpo da jovem ficou encarcerado e o da mulher foi cuspido. Os dois cadáveres foram transportados por mar, para segurança dos próprios bombeiros
O Citroën C3, de cor vermelha, ficou completamente destruído após uma queda de mais de cem metros de altura. O corpo da jovem ficou encarcerado e o da mulher foi cuspido. Os dois cadáveres foram transportados por mar, para segurança dos próprios bombeiros FOTO: Manuel Moreira
Há muito que a mulher dizia ao companheiro que “qualquer dia acabava com a sua vida e com a da filha”, disse ao CM uma fonte policial. Sentia-se desesperada com a dependência e o sofrimento da jovem, que precisava dela para se alimentar e movimentar. Ontem, sem que nada o fizesse prever, conduziu de Alhos Vedros até ao Cabo Espichel e consumou a promessa.
No local onde os bombeiros já fizeram três resgates, só este ano, não há sinais de travagens ou de hesitação. A mulher não teve dúvidas antes de se atirar – no seu Citroën C3 de cor vermelha – de uma altura superior a cem metros.
Os bombeiros de Sesimbra foram alertados para a queda da viatura pelas 12h30 e iniciaram a operação de resgate cerca de uma hora depois.
O corpo da filha estava encarcerado dentro da viatura. O da mãe fora cuspido para fora do carro, devido à violência do embate.
Depois de confirmados os óbitos e as identidades das duas mulheres, residentes em Alhos Vedros, a família foi chamada ao local. Segundo a psicóloga dos Bombeiros de Sesimbra, nestes casos “ a família é informada por uma psicóloga que acompanha todo o processo de urgência”.
Caso a família queira continuar com o apoio psicológico, basta solicitar à corporação. “É normal continuarmos o acompanhamento. As pessoas preferem falar com quem esteve no local”, disse ao CM.
O companheiro da mulher (que não era pai da rapariga de 25 anos) manteve-se distante das operações de resgate – que só terminaram pelas 17h00. Garantiu à Polícia Marítima que há muito que a mulher ameaçava pôr termo à vida e que não houve qualquer outro motivo “sem ser o facto de ter uma filha deficiente”. Mais perto esteve uma amiga da mulher, que quis acompanhar a operação.
Na localidade de Alhos Vedros, ainda poucos sabiam do ocorrido. “A menina era muito deficiente. Precisava da mãe para se alimentar e movimentar”, disse uma vizinha.
As duas moravam com um homem, canalizador, que “as ajudou sempre, desde que a menina era bebé”, disse a mesma vizinha.
Os corpos de mãe e filha foram resgatados por mar. Um numa lancha da Polícia Marítima e outro num bote dos bombeiros. Seguiram, depois, do porto de Sesimbra para a morgue. No resgate estiveram envolvidos 15 homens, já habituados a descer o Cabo Espichel. Este ano é já o terceiro caso. “Só me lembro de um que sobreviveu”, recordou o responsável pela operação, o segundo comandante Luís Saraiva. Um caso que o CM noticiou na altura quando, em Novembro de 2004, um jovem de 25 anos ali tentou o suicídio. A viatura em que seguia caiu sobre o carro de uma mulher que ali se tinha suicidado. O homem sobreviveu, mas acabou por se suicidar um mês depois na ponte Vasco da Gama.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)