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Correio da Manhã

Portugal
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Médicos falham operações

A Inspecção Geral de Saúde abriu um processo de averiguações para apurar se houve negligência médica na assistência prestada a uma menina de nove anos, operada duas vezes a um tumor no pescoço, no Hospital Pedro Hispano, no Porto, e enviada para casa para morrer.
19 de Agosto de 2005 às 00:00
A pequena Salomé mostra a caixa onde guarda as peças da primeira prótese
A pequena Salomé mostra a caixa onde guarda as peças da primeira prótese FOTO: Francisco Pedro
Os pais não se conformaram e recorreram a uma equipa de cirurgiões franceses, que a voltaram a operar, desta vez com sucesso, e que redigiram um relatório onde levantam dúvidas sobre a actuação dos clínicos do Porto. Entretanto, a menina está bem e já retomou a sua vida normal.
Os pais de Salomé Estrelinha, Luís e Celeste, ainda sentem um aperto no estômago quando recordam as palavras do neurocirurgião do hospital portuense, no dia em que receberam a pior notícia das suas vidas: “O que havia a fazer por ela foi feito, o tumor vai fazer o resto. Dê-lhe o medicamento até aguentar. Não há tratamentos para a curar, irá morrer por asfixia, a dormir.”
Mas Luís Estrelinha não desistiu e recorreu a uma equipa de neurocirurgiões franceses, que detectaram alegados erros na actuação dos médicos portugueses – descritos no relatório – e fizeram uma nova operação, usando uma técnica diferente, que permitiu retirar o tumor na totalidade. Além disso, os clínicos colocaram uma nova prótese, pois a primeira estava aparafusada no próprio tumor.
A intervenção ocorreu no dia 10 de Junho de 2004, no Hospital Lariboisière e o estado de saúde da menina era então “gravíssimo”: estava tetraplégica e corria sério risco de morrer a qualquer momento. A cirurgia foi longa e muito difícil, o pós-operatório muito complicado, mas devolveu a saúde à pequena Salomé, que recuperou de uma forma “espectacular”. Segundo um relatório dos médicos franceses, é “autónoma” do ponto de vista respiratório, alimentar e motor e não precisa de qualquer “tratamento particular”.
Enquanto a menina era assistida pelos médicos portugueses, Luís Estrelinha pressentiu que “algo de errado se passava”. Mas, só após a última intervenção percebeu que, afinal, o tumor, de origem benigna, designado por osteoblastoma, que Salomé tinha na vértebra C2, não tinha sido removido em Portugal. É que, da maneira que o tumor estava alojado, só poderia ser retirado pela garganta, como fizeram os cirurgiões franceses, e não pela nuca, como fora tentado antes.
“Eu pensei que ela estivesse bem operada e que era o tumor a crescer. Não me passou pela cabeça que tivesse sido mal operada”, conta Luís Estrelinha, lamentando que os médicos só digam “nas entrevistas o que correu bem e nunca aceitem admitir o erro.”
Luís Estrelinha deu conhecimento da situação à Inspecção Geral da Saúde, que determinou a organização de um processo de averiguações e submeteu os factos a uma peritagem médica especializada, constituída por especialistas das áreas de oncologia, pediatria e neurocirurgia.
RECUPERAÇÃO EXTRAORDINÁRIA
Após a operação em França, a pequena Salomé teve uma recuperação fantástica, que até surpreendeu os médicos que a assistiram. Luís Estrelinha já sabia que a filha era “muito forte” mas, mesmo assim, ficou surpreendido quando os médicos franceses destacaram a “força interior” e a “vontade de viver” que demonstrava. Antes de surgir a lesão, integrava o Rancho Folclórico Infantil Tá-Mar, da Nazaré, e praticava natação. Na escola, a professora considera-a uma criança “afável”, que mantém uma “boa relação” com toda a gente, para além de ser “muito interessada, aplicada e participativa”. Apesar de ter faltado a muitas aulas, por estar a recuperar da operação, o seu comportamento escolar não sofreu alterações e superou as dificuldades, terminando o ano com aproveitamento.
TUMOR REAPARECE APÓS PRIMEIRA INTERVENÇÃO
Uma dor no pescoço, de início associada a um torcicolo, mudou a vida de Salomé. Estávamos em Março de 2003, era terça-feira de Carnaval, e a menina queixou-se de que não conseguia virar o pescoço. Como as dores persistiam, em especial quando virava a cabeça para o lado esquerdo, os pais consultaram um ortopedista, que mandou fazer uma tomografia axial computorizada (TAC). O exame chegou em Junho e acusou uma lesão na vértebra C2, diagnóstico confirmado através de uma ressonância magnética. Os pais de Salomé recorreram então a uma equipa de neurocirurgiões do Hospital Pedro Hispano, que fizeram em Julho a primeira intervenção cirúrgica, com o objectivo de retirar o tumor e colocar uma prótese e um colete cervical. A menina continuava com dores, mas isso foi considerado “normal”. “Agora tens um pescoço ‘novo’, vais ter de aprender a lidar com as dores”, disseram os médicos. A situação complicou-se em meados de Dezembro, quando foi retirado o colete cervical: primeiro surgiu-lhe um formigueiro nas mãos, depois num pé, a seguir deixou de levantar o braço esquerdo e quando chegou a noite de Natal nem conseguia sentar-se. Estava tetraplégica. Voltou ao hospital e os médicos concluíram que o tumor tinha “reaparecido”, marcando nova operação para Janeiro de 2004, durante a qual fizeram uma “remoção significativa do tumor”, conforme refere um relatório médico. Só que a menina não melhorou, nem depois de se sujeitar a um tratamento com radioterapia.
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