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Correio da Manhã

Portugal
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MENORES SEM RUMO À VISTA

Três dos jovens abusados sexualmente por um professor há cerca de cinco anos estão a sofrer as consequências da vida para a qual foram lançados abruptamente. Dois deles, hoje com 16 anos, terão enveredado pelo mundo do crime, da prostituição e da droga.
4 de Setembro de 2004 às 00:00
O mais pequeno, agora com 12 anos, ainda está sob controlo familiar, mas o seu rendimento escolar deixa muito a desejar, apresentando graves sequelas psicológicas devido a ameaças de morte que recebeu durante o julgamento.
O professor, que foi condenado a 12 anos e meio de prisão, encontrava-se detido quando as ameaças foram feitas.“Na altura do julgamento, alguém andou a assustar os miúdos. Ao meu filho diziam que metiam bombas lá em casa, que matavam a irmã e a avó. Seria alguém das relações do professor”. O relato é feito pela mãe de um dos menores, o qual tinha apenas sete anos quando fez amizade com P.A., em 1999.
Segundo a progenitora, na sequência destas ameaças, a família foi obrigada a fugir de Lisboa. “O meu filho vivia apavorado, sentia-se perseguido e tinha medo de ir à escola”. ‘Maria’, chamemos-lhe assim, não quer identificar-se, deseja apenas denunciar uma situação que envolverá mais crianças do que aquelas que foram identificada pela Polícia Judiciária e cujos contornos diz serem estranhos.
DROGA E PROSTITUIÇÃO
“Dá-me a sensação que o miúdo deve ter assistido a algum ritual satânico, porque as conversas dele eram muito estranhas. Falava em morcegos e vampiros e um dia disse-me que deveria haver corpos enterrados no terreno da casa onde vivia o professor. Ele contava ao miúdo que fazia sessões de espíritos”. ‘Maria’ sabe pouco destes rituais, diz que o filho colocou uma pedra sobre o assunto e que não consegue separar a realidade da ficção.
Sabe apenas que o menor continua sem apoio psicológico e a viver traumatizado. Continua a fazer chichi na cama e a ter insónias. A nível escolar, passou agora para o 4.º ano do Ensino Básico.
Quanto aos outros dois jovens – que tinham 12 e 13 anos quando conheceram o arguido – ‘Maria’ descreve um trajecto mais problemático: “O mais velho passou a prostituir-se, anda a roubar e não se aguenta muito nos empregos; o outro bebe e anda metido na droga. Também deixou de estudar.”
Segundo ficou provado em tribunal, este professor de 39 anos aliciava os jovens na zona dos Olivais, pagando-lhes favores sexuais com dinheiro, roupa e refeições. Na sua posse foram encontradas centenas de fotografias de menores quase sempre nus e em poses pornográficas. Suspeita-se que este caso tenha contornos internacionais e que o arguido vivesse do produto da venda das fotografias.
Estes menores enfrentaram o julgamento sem qualquer tipo de apoio psicológico por falha das instituições. ‘Maria’ procura desesperadamente esse apoio, antes que seja tarde de mais para o seu filho.
SOBREVIVER AO TRAUMA
“Nem todas as pessoas que passam por experiências traumatizantes ficam com sequelas para o resto da vida. Alguns conseguem superar essa situação de forma positiva”. A análise é feita pelo responsável do Serviço de Psicoterapia Comportamental do Hospital Júlio de Matos. José Pacheco convida estes jovens a dirigirem-se ao seu serviço referindo que a inversão do rumo que seguem neste momento é possível, mas dependerá de vários factores. Um deles, o contexto familiar. “Há factores que jogam desfavoravelmente. É sempre mais fácil para uma família que está organizada saber o que fazer”. Essencial, frisa, é a ajuda psicológica que este menores não tiveram. Com ela, poderão tentar ultrapassar os seus medos.
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