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Correio da Manhã

Portugal
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MOMENTO INESQUECÍVEL

A longa viagem, desde a ilha de S. Miguel, nos Açores, até à Serra da Estrela, valeu a pena: Sandro viu, tocou e foi tocado pela neve. Aliás, no sítio da Nave, o petiz açoriano participou e envolveu-se num verdadeiro 'festival' de bolas de neve.
29 de Dezembro de 2002 às 00:00
Ao pisá-la, ontem, pela primeira vez, deixando impressas pegadas pequeninas, exclamou: "Ai, que riquinho". Num momento inesquecível, o riso saía-lhe às gargalhadas, quase convulsivo. "A neve é 'bisnita", uma palavra inventada por ele para referir-se àquilo que "está para além de bonito".

Além de "bisnita", a neve é também "friíssima", constatou, ao tirar as luvas, para amassar mais um bocado, fazendo-o voar na direcção do irmão, Marlon Silva, ou apontando à "pelada" de um amigo com pouco cabelo. A mãe e o pai também não escaparam à vontade de brincadeira do Sandro. Ambos cuidavam de indicar-lhe os caminhos seguros, pois, dada a fragilidade óssea do petiz, qualquer passo mal programado pode resultar em fractura.

"Acho que é melhor pô-las outra vez." Sandro referia-se às luvas. Ao tocar com os dedos a neve, deve ter constatado a necessidade de inventar uma palavra capaz de exprimir mais do que frio ou, mesmo, "friíssimo".

O amigo Andrew não mentia quando lhe contou que a neve era "fofinha" e, ao mesmo tempo, era preciso força para compor uma bola, pois logo ficava "muito dura". Sandro assimilou rapidamente a contradição.

Maior paradoxo do que aquele é o facto de ser uma criança e sofrer de uma doença grave - a osteogénese. No entanto, o rapaz, 10 anos, que pensa e fala como tendo 12, consegue viver com tal paradoxo, a maior parte do tempo sem sinal de desânimo.

Mas o que era aquilo, ali ao lado, com os olhos e a boca feitos de pedaços de granito, nariz de ramo e orelhas especialmente peludas? "Olha, um boneco de neve!"

Agarrando as mãos dos pais, para evitar zonas de gelo e poder andar mais depressa, Sandro saudou-o, acabando, porém, por usar-lhe a cabeça pequena como se fosse mais uma bola de neve. Antes de atirá-la sorriu com ar maroto, perguntando quem se habilitaria a apanhar com aquela.

Muito próximo do ponto mais alto de Portugal - o acesso à Torre, situada a dois mil metros de altitude, esteve cortado durante toda a manhã -, apeteceu a Sandro, tal como a muitos outros meninos que ontem brincavam na neve, descer de um modo especial, ou seja, escorregar.

Um trenó vermelho serviu-lhe para experimentar o vórtice da descida, moderada pelo irmão Marlon, que se exercitou como piloto. A viagem correu bem, mas o petiz preferiu, a seguir, que lhe puxassem o trenó, pois sabe bem as implicações que uma queda pode ter para o seu corpo.

A descer para Manteigas - um nome que o pequeno não vai esquecer, pois adora manteiga e tudo o que é derivado de leite - "bem se vê que és açoriano", comentou o pai, José Silva -, reparou nos pinheiros tão pingados de neve: “Parece o Natal".

Quando Sandro soube que ali, no Parque Natural da Serra da Estrela, vivem lobos, javalis, raposas e gatos-bravos, espreitou pela janela do carro, a ver se dava com algum. Mas logo o aborreceu a inspecção e, a seguir ao Poço do Inferno, onde existe uma cascata às vezes congelada, acabou por adormecer. Talvez sonhasse com a neve.
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