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Correio da Manhã

Portugal

Moradores revoltados com novas habitações

Eu não consegui ver a casa da minha vizinha ser demolida, também não vou ficar aqui para ver a destruição da minha. Custa muito”, desabafa Beatriz Van-Dunen. Tem três filhos e é uma entre os muitos moradores revoltados com a forma como a Câmara de Almada está a levar a cabo as demolições na Mata de Santo António, na Costa de Caparica.
3 de Maio de 2006 às 00:00
As máquinas da autarquia começaram ontem a deitar abaixo as primeiras habitações clandestinas. Para já serão apenas 120 as barracas demolidas, mas o número aumentará para as 301 até ao final do mês. As famílias estão a ser realojadas na Quinta do Chegadinho, no Feijó, mas são muitas as críticas às novas habitações.
Beatriz acredita que “os meninos vão ficar melhor”, mas tem dúvidas sobre as condições do novo lar.“As dimensões da casa são muito pequenas. Tenho uma filha deficiente e vai ser muito difícil tê-la lá apenas com dois quartos.”A falta de espaço foi o argumento mais usado por quem retirou, durante toda a manhã, móveis, roupas e electrodomésticos do aglomerado de barracas. Idalina, moradora na Mata há 12 anos, disse ao CM que vai sair do bairro “desiludida”. “Somos um casal com quatro filhos numa casa com dois quartos, vamos ficar asfixiados lá dentro.”
Apesar de não morar em nenhuma barraca, a habitação ilegal de Luís Quintino, com cinco assoalhadas, não vai escapar ao arremesso das retroescavadoras. “Deram-nos um T0, por isso o meu neto vai ter que dormir na sala e eu vou pagar 100 euros de renda por um cubículo”, afirma indignado. Na mesma situação está Maria, que diz não ter “uma casa compatível com a que tínha”. “Os compartimentos são pequenos e as paredes muito frágeis, todas feitas de pladur, uma espécie de contraplacado.”
UM LAR EM TROCA DE CASA
Aos 86 anos, Araújo nunca pensou ter de lidar com a demolição do sítio onde viveu durante 28 anos. Cansado, diz ao CM que “preferia ter lugar num lar da misericórdia em vez de uma casa”. “Para a casa nova tenho de comprar um fogão a gás e um esquentador, onde é que tenho dinheiro para isso? 0Já não tenho forças, ficava melhor num lar.”
REALOJAMENTO TEMPORÁRIO
O vereador da Habitação Social de Almada, Rui Jorge Martins, garante que o regresso dos moradores ao bairro “é uma certeza” dentro de dois anos. As barracas vão dar lugar a um “jardim urbano com uma zona de habitação social com 144 fogos”, incluído no Pólis da Caparica.
Às críticas dos moradores, Rui Jorge Martins responde que “o realojamento é temporário”. Admite que “em alguns casos não há uma tipologia adequada”, mas garante que os moradores “vão para uma habitação com melhores condições do que antes”.
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