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Correio da Manhã

Portugal
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MORGADO DEIXA A POLÍCIA

Mário Morgado demitiu-se ontem do cargo de director nacional da PSP por considerar que, devido à mudança de Governo, ocorreu uma “significativa alteração do quadro de referências” em que trabalhou nos últimos dois anos. O juiz desembargador deixa o cargo com muitas críticas das associações profissionais e, segundo apurou o CM, deverá regressar ao Tribunal da Relação de Lisboa.
29 de Julho de 2004 às 12:05
Mário Morgado
Mário Morgado FOTO: Arquivo CM
No seu lugar, até ser nomeado o novo director-geral, deverá ficar um dos adjuntos.
Na carta de demissão que entregou ao novo ministro da Administração Interna, Daniel Sanches, Mário Morgado esclarece que a “mudança de governo agora verificada consubstancia uma significativa alteração do quadro de referências, equilíbrios e pressupostos de natureza política que até agora tem permitido percorrer, sem desvios relevantes, o caminho traçado”.
O juiz desembargador assumiu o cargo de director nacional da PSP a 5 de Agosto de 2002 com quatro objectivos estratégicos: maior eficácia no combate à criminalidade, reforço da autoridade policial e do estatuto dos polícias e a aposta na informatização e novas tecnologias. Dois anos depois, as associações socioprofissionais escolhem uma palavra para classificar a permanência de Morgado à frente dos destinos da Polícia: desilusão.
“Esta saída não nos surpreende, dado o clima de insatisfação que, desde há algum tempo, se vive na PSP”, referiu ao CM António Ramos, do Sindicato dos Profissionais de Polícia (SPP). “Os problemas que existiam há dois anos, continuam sem ser resolvidos e alguns foram mesmo agravados.”
Alberto Torres, da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP), considera que “tudo falha quando não há viabilidade política para se dar satisfação aos problemas da PSP”. “A verdade é que foram criados grupos de trabalho para diversas áreas e, dois anos volvidos, pouco se adiantou”, sublinhou.
O termo “desilusão” surge também entre os oficiais da PSP. Jorge Soares, presidente da Associação Sindical dos Oficiais de Polícia (ASOP), disse ao CM que Mário Morgado “prometeu muito e não consolidou praticamente nada”. “Criaram-se muitas expectativas, produziram-se bons documentos, mas que não foram aplicados.”
Na carta de demissão que ontem entregou ao novo ministro Daniel Sanches, Mário Morgado caracteriza a relação com o anterior governante, Figueiredo Lopes e garante que “com firmeza e determinação – e, antes do mais, com um apoio permanente e inequívoco da tutela política –, tem sido possível gerir e controlar a conflitualidade inerente à execução dos processos de reforma em curso na PSP”.
SUBSTITUIÇÃO
ADJUNTO ASSUME
Um dos três directores nacionais adjuntos – os superintendentes-chefe Gaspar Fernandes, Dário Sobral e Coelho Lima – deverá assumir o cargo mais alto da PSP até ser indicado o novo director nacional da instituição.
ONZE POSSIBILIDADES
Na prática, há onze nomes elegíveis para o cargo: dez são superintendentes-chefes. O 11.º é o superintendente Oliveira Pereira, actual comandante de Lisboa, que poderá ser promovido se for o escolhido.
REACÇÃO POLÍTICA
O primeiro-ministro Santana Lopes não quis comentar a saída de Mário Morgado. Para o PS, a demissão do director nacional da PSP é “mais um sinal de instabilidade”.
DUAS RODAS E NOITE DE PRAXES
Duas quedas de moto, uma delas numa ponte com trânsito proibido, e uma noite de praxes na instituição onde são formados os oficiais ficam para sempre ligadas ao período que Mário Morgado passou à frente da PSP. Atrasos nas promoções, más condições de trabalho e esquadras degradadas são algumas das falhas apontadas pelos sindicatos ao agora ex-director nacional da Polícia, que foi também apontado por criar um serviço de informações ilegais. Mas Mário Morgado deixa o cargo depois de um Campeonato Europeu de Futebol que foi considerado um “êxito” em termos de segurança.
SOLUÇÃO INTERNA É A PREFERIDA
Os principais sindicatos da PSP vêem com bons olhos uma solução interna para ultrapassar a crise aberta com a demissão de Mário Morgado. “Há na instituição quadros qualificados para ocupar o lugar”, assegura Alberto Torres, garantindo que a ASPP “não aceitará um regresso ao passado”. Também o SPP prefere um “homem da instituição”, enquanto os oficiais apenas pedem “alguém com sensibilidade para os problemas e que os possa resolver”.
No seio da PSP, dez superintendentes-chefes e um superintendente estão na linha da frente para ocupar o lugar de director nacional. No entanto, e tal como sucedeu com Mário Morgado em 2002, a escolha do novo ministro da Administração Interna Daniel Sanches, pode passar por um elemento civil, sem ligação à PSP.
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