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Correio da Manhã

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Morgado pode acusar Pinto da Costa de corrupção

Maria José Morgado vai liderar as investigações ao ‘Caso das Prostitutas’ que envolve Pinto da Costa e o árbitro Jacinto Paixão, cabendo-lhe ainda deduzir o despacho final que, segundo asseguraram vários penalistas ao CM, só pode ser de acusação pelo crime de corrupção desportiva activa, punido com pena de prisão até quatro anos.
20 de Janeiro de 2007 às 00:00
Morgado pode acusar Pinto da Costa de corrupção
Morgado pode acusar Pinto da Costa de corrupção FOTO: D.R.
“Não fazia sentido que, por ter novas provas, a procuradora ordenasse a reabertura de um processo e no final não optasse por um despacho de acusação”, afirmou um conhecido advogado, especialista em Direito Penal, que solicitou o anonimato.
De acordo com fonte oficial da Procuradoria-Geral da República, Maria José Morgado só não pode decidir em que comarca será julgado Pinto da Costa: “O processo é oriundo do Porto, pelo que será no Porto que irá decorrer o julgamento.”
No despacho que ordenou a reabertura do processo contra Pinto da Costa e Reinaldo Teles (dirigentes do FC Porto), António Araújo (empresário) e Jacinto Paixão, José Chilrito, Manuel Quadrado, Luís Lameira e Paulo Pereira da Silva (árbitros), por crimes de corrupção desportiva no jogo FC Porto-Estrela da Amadora, disputado no Estádio das Antas, no dia 24 de Janeiro de 2004, Maria José Morgado considerou fundamental o depoimento que Carolina Salgado prestou no Ministério Público, no passado dia 9.
De acordo com a procuradora, Carolina confirmou que António Araújo, sempre a mando de Pinto da Costa, contactava árbitros e lhes pedia para ajudar o FC Porto. A ex-namorada do presidente dos ‘azuis e brancos’ esclareceu que, nos contactos com os árbitros, os termos ‘fruta’, ‘fruta de dormir’ e ‘café com leite’ correspondiam a entregas de dinheiro e serviços de acompanhamento sexual, praticados por raparigas, contratadas por António Araújo, Reinaldo Teles e Joaquim Pinheiro, em bares do Porto.
Perante o depoimento de Carolina, a procuradora entende que o novo elemento de prova é mais do que suficiente para colocar em crise os fundamentos que levaram ao anterior arquivamento do processo pelo magistrado Jorge Marques, do Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto: isto porque não tinha sido estabelecido o nexo de causalidade entre os proporcionados momentos de prazer ao trio de arbitragem e qualquer contrapartida de desvirtuamento da verdade desportiva, antes, durante ou depois da data do jogo.
Segundo Maria José Morgado, é agora possível afirmar que Pinto da Costa – por si ou por interposta pessoa, com o conhecimento e participação de António Araújo e dos restantes arguidos – solicitou a Jacinto Paixão a prática de actos contrários às regras do futebol (no jogo FC Porto-Estrela), a troco de contrapartidas de valor pecuniário e a troco de favores sexuais de prostitutas.
Salienta ainda Maria José Morgado que a proximidade doméstica de Carolina com Pinto da Costa e outros arguidos, longe de lhe retirar credibilidade, lhe atribui verosimilhança e verdade material.
'MILAGRE DE NOSSA SENHORA'
Gil Moreira dos Santos, advogado de Pinto da Costa, desvalorizou ontem o facto de Maria José Morgado ter reaberto o processo do ‘Caso das Prostitutas’. “Ainda não faço a mínima ideia do que tenha sido, mas terá sido um qualquer milagre de Nossa Senhora da Encarnação”, disse o advogado à agência Lusa.
O defensor de Pinto da Costa observou ainda que, se a reabertura do processo se dever às declarações de Carolina Salgado, “se põe um problema de credibilidade” que se soma a “conjecturas” sobre “bexigas, rins e pulmões”. “Quando chegar a hora (de pronunciar ou não Pinto da Costa) é que vamos ver se o comboio tem força para andar”, concluiu.
António Colaço, defensor de Jacinto Paixão, disse ao CM que o árbitro está tranquilo e exige a reabertura dos “127 casos” do processo ‘Apito Dourado’ que foram arquivados: “O meu cliente nada tem a esconder.”
PROCURADORA INTERESSADA NO METRO DO PORTO
Maria José Morgado está a analisar o arquivamento do caso do Metro do Porto, em que Valentim Loureiro foi suspeito do crime de tráfico de influências. Em causa esteve a possibilidade de o major ter interferido na atribuição de uma empreitada na Rotunda da Boavista ao empresário Alberto Couto Alves, amigo do construtor Joaquim Camilo.
No dia da decisão, foi interceptada uma escuta em que Valentim diz ao filho, João Loureiro: “Eu resolvi... agora um problemazinho também ao... nosso amigo Camilo, aí para um amigo dele e tal... uma coisa lá da Metro, num concurso que lá foi para o amigo dele...”
OUTROS CASOS COM ÁRBITROS
ÁRBITRO EM CASA DE PINTO DA COSTA
O árbitro Augusto Duarte e o empresário António Araújo estiveram em casa de Pinto da Costa a 16 de Abril de 2004, dois dias antes do Beira Mar-FC Porto (0-0), que o juiz de Braga ia dirigir. Dias depois, o árbitro assistiu no camarote VIP do Dragão ao FC Porto-M. United (Liga dos Campeões). O processo foi arquivado em Gaia.
BENFICA PERDE NA MADEIRA
No dia 22 de Fevereiro de 2004, o Benfica foi jogar com o Nacional, na Madeira, e perdeu (3-2), numa partida dirigida por Augusto Duarte. O Ministério Público, de acordo com as escutas, equacionou a possibilidade de António Araújo e Pinto da Costa terem pedido a Augusto Duarte para prejudicar o Benfica. O processo corre na Madeira.
BRUNO PAIXÃO EM BRAGA
No dia 17 de Março de 2004, o FC Porto defrontou o Sporting de Braga e ganhou (3-1), jogo a contar para a Taça de Portugal. Pinto da Costa foi apanhado em escutas, alegadamente, a pedir ao presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, Pinto de Sousa, que nomeasse o árbitro Bruno Paixão. O caso está no Ministério Público de Braga.
ESCUTAS ANTES DO JOGO
A 24 de Janeiro de 2004, antes do jogo FC Porto e Estrela da Amadora (2-0), Jorge Nuno Pinto da Costa foi apanhado nas escutas, com António Araújo.
António Araújo – “Ó senhor presidente, ligaram a pedir a fruta para logo à noite. Posso levar essa fruta à vontade? [...] É que eu dou conhecimento ao senhor presidente, porque também não há necessidade de eu estar sempre a dispor [a pagar do seu bolso, segundo versão da Polícia Judiciária].”
Pinto da Costa – “A fruta já foi mandada.”
António Araújo – “Mas essa fruta é daquela para dormir. É para o homem que vai ter consigo à tarde, o JP[Jacinto Paixão, refere a PJ e o MP], é rebuçado para logo à noite...”
Pinto da Costa – “Mas é [...] para dormir, o JP?...”
António Araújo – “Ele ligou a pedir rebuçado...”
Pinto da Costa – “Ahh! Sim, sim, diga que sim senhor.”
António Araújo – “Café com leite [mulata], café [negra] e leite [branca]”, referindo-se à cor das prostitutas brasileiras que pediu a uma amiga, Cláudia Gomes.

Nesse dia, António Araújo, o empresário de futebolistas, telefonou a um funcionário do Porto, o engenheiro Luís Gonçalves:
António Araújo – “Eu até ajudo muito o nosso presidente e você já sabe disso.”
Luís Gonçalves – “Hã?”
António Araújo – “Eu ando a fazer um trabalho importante para o presidente.”

Ainda nesse mesmo dia, o árbitro Paulo Silva, diz em telefonema a um colega:
Paulo Silva – “Lembras-te de uma vez a gente acabar [...] no putedo, com o Araújo, lá no Porto?...”
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